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Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

“Amar Demais”…

Respeito, admiração, solidariedade e dor

Entre a consciência e a falta dela, há uma mente que sente e outra que pensa.

“Segue o teu coração”, ora nos diz a mente que sente.

“Avalia os prós e os contras”, ora nos diz a mente que pensa.

Enfim, nem sempre os dois lados se entendem. Por isso, há personalidades cuja razão se sobrepõe à emoção e vice-versa, logo, existem pessoas mais racionais e pessoas mais emocionais.

As mais emocionais, as que colocam o coração à frente da razão, essas, são as pessoas que amam demais.

As pessoas que amam demais são sensíveis, empáticas, carentes e intensas; elas, apesar de serem fonte de inspiração para os pares, vivem no descontentamento e quando se desiludem desiludem-se profundamente, mas só consigo próprias.

As pessoas que amam demais não se limitam a representar um papel, elas encarnam a personagem.

As pessoas que amam demais vivem no fio da navalha; elas empenham-se vezes mil, questionam-se vezes mil, culpabilizam-se vezes mil e são capazes de rir quando no fundo lhes apetece chorar.

As pessoas que amam demais encantam-se pela vida e desencantam-se dela à mesma velocidade.

E como amar demais não é pecado, ninguém deveria morrer por amar demais…

Violeta

Violeta - Pedro Lima.jpg

Divergências entre irmãos

Numa versão revista e reeditada

“Se soubesses como és feia quando te ris, nunca mais te rias na vida!”, dissera um irmão a Violeta.

Se muitas das bordoadas esquecera, foi porque nenhuma delas lhe doera tanto como esta frase castradora de alegria e de graça. O sentido, o eco e o peso da frase perseguiram-na durante anos. Durante anos ou evitou ou escondeu, tapando, o riso. Até um simples sorriso se via reprimir. Lamenta que lha tivessem dito, e mais ainda lamenta pelo facto de o emissor ser um dos irmãos que mais admira e gosta.

Violeta passou a infância a sentir-se burra entre os inteligentes, a mais feia entre bonitos e a mais má de todos. Tinha saído ao pai: “Tal e qual, é como quem te desenhou a lápis. És má como as cobras!”, repetira a mãe incontável número de vezes, sob o olhar atento e acusador dos irmãos.

Violeta desconhece as origens do pai. Homem severo, honesto, trabalhador e de uma retidão levada ao extremo, não era por trabalhar a terra que descurava o asseio, o comportamento à mesa, ou a falta de respeito. Avisar até podia avisar uma vez, mas à segunda já se apanhava.

“O estupor da rapariga pega na enxada e tira batatas como um homem!”, dissera ele à mãe, por puro acaso ao passar Violeta ouviu. Gostava dela. Apesar de nunca o ter verbalizado, foi a primeira pessoa de quem teve essa consciência. Talvez a tenha desculpado pelo facto de ter nascido rapariga, quis acreditar.

Empilhar cavacos não era tarefa fácil. Lá por casa fazíam-no no Verão em dose suficiente para alimentar o forno e o fogão durante o Inverno.

A irmã de Violeta, mais velha dois anos, odiava fazê-lo. Odiava qualquer uma das tarefas incumbidas, na verdade. Mas gostar Violeta também não gostava! Nenhuma criança há de adorar ter de passar dias consecutivos em trabalho contínuo e duro, muito duro. As desfolhadas, a apanha das batatas ou lenha da poda, as regas, as colheitas, as vindimas, o arrastar pés descalços sobre eira escaldante, as mondas e tantas outras tarefas ligadas ao campo, preenchiam os dias nas quatro estações do ano. Na sequência, sendo o tempo para brincar uma miragem, lá se devaneava com um simples graveto e se era trazido de volta à realidade e ao trabalho com uma sarrafada. Não, Violeta enquanto criança também não gostava. De todo! Mas não tendo alternativa, conformava-se e deitava mãos ao trabalho.

Um dia, dia puxado em calor e não menos em trabalho, empilhou cavacos sem sequer pestanejar. A olhar para o lado, para quem passara o tempo todo a choramingar, teria feito das dela, como dizia a sua mãe.

À noite, depois do jantar nesse mesmo dia, Violeta recebeu a recompensa: uma pasta inteira de chocolate só para si.

O pai abrira o armário, aquele que mais parecia uma gaiola instalada no topo de um canto na sala, e deu-lha.

Esse era o armário onde o pai acoitava os documentos, os trocos e as lambarices que os familiares traziam de França. Não se podia comer tudo de uma vez, só de vez em quando, quando o Rei fazia anos (talvez já fora do prazo de validade, mas isso nem era tido em conta na altura).

Desta feita, a irmã lá chorou outra vez pela injustiça de uma ter tido chocolate e a outra nada.

Violeta não se recorda ao certo do destino da pasta, mas como é incapaz de ter sem partilhar…

Tratando-se dos três últimos filhos da ninhada, Violeta era a do meio. Com cinco anos de distância, a mais nova de todos, a que viera fora da conta, dizia-se, ou não se encontrasse a mãe em estágio de menopausa, esta, foi crescendo a par com os sobrinhos. Relativamente aos mais velhos, era como se fossem outros pais para si, daí a relação de respeito com um certo distanciamento e embaraço à mistura. Depois havia a irmã logo a seguir. Como já devem ter percebido, Violeta e esta irmã andavam sempre às turras. Mas os irmãos são mesmo assim: passam de o cão e o gato a melhores amigos num instante.

Talvez por ter saído burra, feia e mijona, Violeta nunca chegou a sentir-se a menina da casa e da família.

Uma das irmãs mais velhas, a que vivia e trabalhava em França, regressando apenas nas férias, a dada altura trouxe dois vestidos novos. Violeta ficou em pulgas! Nunca tinha ganho um vestido novo. O verde clarinho seria para a irmã, para lhe realçar a beleza e os lindos olhos da mesma cor. O azul clarinho seria para ela, para dar alguma da luz do qual não tinha sido abençoada.

Como os vestidos eram grandes, Violeta meteu-se debaixo da cama a chorar. Nesse mesmo ano a irmã estreou o que era para si e no ano seguinte estreou o outro.

Por mais que o episódio lhe soe banal ou niquice nos dias que correm, enquanto criança teve um efeito avassalador, uma espécie de tsunami que a fez mergulhar no mais profundo desalento.

E pronto, Violeta amuou outra vez.

Tem vezes que dá por si a dar razão aos irmãos, relativamente ao ser má, feia e amuada, ou não tivesse ela passado grande parte da infância a fazer das dela e a maior parte do tempo envolta por uma tristeza tida e confundida com capricho ou amuo. Não se querendo justificar, mas justificando, a irmã e o seu ar de superioridade tinham a capacidade de despertar em si o seu pior lado. E como era uma espécie de revoltada com temperamento impulsivo…. “És má como as cobras!”, lá repetia a mãe outra vez.

Mas se Violeta nunca reagira de forma gratuita, também nunca alguém se preocupou em perceber o seu lado e apurar os porquês.

Enfim, resulta um sortido rico em temperamentos, tratando-se de uma família numerosa. Entre tantos, há sempre aqueles que são mais ardilosos e egoístas, os mais retraídos e amuados, os privilegiados e os desfavorecidos, os revoltados e os indiferentes, e outros que, vitimizando-se, lá conseguiam dar a volta a seu favor. Mas perfeito, que é como quem diz aquela perfeição de filho!, ninguém atingiu esse patamar, incluindo e sobretudo Violeta.

A verdade é que sempre gostou da irmã e sofria quando, de forma impulsiva, a magoava fisicamente. Por outro lado, a irmã sequer tinha ou tem noção do quanto a depreciou e magoou, engrandecendo-se.

Mas como com o passar do tempo tudo se ajusta e com ele tudo passa, na juventude tornaram-se amigas de sair.

E com a juventude, uma nova fase, outros quinhentos…

Violeta - irmãos família.jpeg

Relativamente ao homicídio de George Floyd

Apesar deste não ser um Blog de opinião, haverá sempre espaço para uma ou outra excepção.

“Nenhum homem é uma ilha isolada: cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me porque faço parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”, JOHN DONNE (Cita Ernert Hemingway, no início do livro: Por Quem os Sinos Dobram).

Leia, apreenda e pense.

Enquanto a mente humana distinguir o branco do preto, não deixará de existir racismo. Ninguém precisa ser negro para compreender a realidade das comunidades negras. O ADN distingue as espécies, não cores ou outra coisa qualquer. Pessoas, somos um só género e ponto!

Quando nos identificarmos como um todo, género humano, só aí, a coisa começará a mudar de figura.

Relativamente ao homicídio de George Floyd, há um criminoso que tem de ser exemplarmente punido, e há uma vítima a lamentar. E se a morte de George Floyd diminui o género humano, que diminui, então estamos todos de luto,

Violeta

Afeto, era um prato de comida

Numa versão revista e reeditada

Uma menina fungava os moncos, que lhe batiam nos beiços, enquanto os piolhos escuros e roliços caíam sobre o branco da sebenta em sala de aulas.

A estes, que como baratas tontas percorriam a superfície lisa da folha, ela soprava-os como se não fossem seus; como se não se tivessem desovado nos fios do seu cabelo escuro; como se não tivessem nascido, crescido e alimentado em si, reproduzindo outros tantos.

Vergonhoso, inaceitável e condenável nos dias que correm, para dar início ao filme baseado na vida de Violeta, esta foi a cena eleita por si, entre tantas outras possíveis e não menos abjetas.

“Preferia que me desses uma bofetada na cara do que me dizeres que é rapariga!”, dissera o seu pai assim que nascera. Logo aí, no decorrer da infância e por tantas vezes ouvir a frase, de forma inconsciente, Violeta foi-se incluindo no lote dos menos afortunados, uma espécie de maldição que a tem vindo a acompanhar ao longo da vida.

Nessa altura, ter raparigas era sinónimo de responsabilidades, preocupações e cautelas redobradas, porque uma mulher engravida e um homem não e porque mais uma menina era mais uma parcela na soma dos encargos. Enfim, enxoval e despesas de casamento corriam por conta dos pais da noiva, coisa de outros tempos.

Da infância, as memórias não são muitas e nem muito claras. Eram muitos irmãos, são muitos irmãos. Apesar de a contagem ter começado a diminuir, ainda completam uma equipa de futebol de 11.

Violeta foi a penúltima, a décima primeira de uma dúzia e daquilo que a mãe designava como: “sois a cruz que Deus me deu”. Desde cedo ela percebeu ser apenas mais um; desde cedo percebeu que um prato de comida na mesa era a expressão máxima de afeto que lhe podiam dar. E a verdade é que um prato de comida na mesa nunca lhe faltou.

Ela era a mijona (fez chichi na cama até aos nove anos). Não sabe se no seu caso específico existia explicação lógica para a enurese noturna, mas lembra-se da resistência ao sono sempre que se deitava. Dormir significava acordar encharcada, pelo que manter-se acordada seria a solução, entendia, erradamente, percebera-o bastante mais tarde. Mas enquanto criança não tinha essa noção, pelo que, naturalmente, facilmente era vencida por um sono que a inundava até ao pescoço. Depois levantava-se, vestia o que houvesse e assim abalava para escola.

Por se sentir desenquadrada e menosprezada, nunca chegou a gostar da escola. No recreio passava a vida escondida pelos cantos e na sala de aulas nada mais enfadonho: a matemática demasiado fácil e a escrita, leitura, cópias e ditados de textos escritos por outrem, era-lhe difícil de gerir.

Os ditados eram para lá de assustadores (cada erro cada reguada e o medo tanto, que se perdia nas palavras e na leitura difusa e apressada da professora).

Na altura designadas como redações, fascinantes eram as composições. Apanhasse ela vagos nas vindimas, desfolhasse ela espigas de milho, apanhasse lenha da poda, batatas na altura delas, carregasse e sobrepusesse cavacos, catasse ervas entre o cebolo, ou o que fosse pelos campos, a imaginação caminhava em passo de corrida na sua mente em pulgas. Gostava de criar textos, os seus próprios textos, com as personagens e os cenários que a sua imaginação lhe ditava.

Nesses textos que eram seus, atrevia-se a explorar lugares, a ter experiências, a entrar em aventuras, outras realidades e a viver vidas que desconhecia. E isso era fascinante!

Um dia a professora sentou a nádega na beira da sua carteira, depois de pousar a régua para que a visse. “Quem escreveu isto?”, perguntara ela, enorme e velha com o seu melhor ar ameaçador.

Se calhar a professora nem era tão enorme, nem tão velha e nem tão ameaçadora como a memória lho dita, mas tudo lhe parecia enorme, velho e assustador na altura.

“Foi a tua mãe?”, insistira a professora, mas insistira tanto que Violeta acabou por confirmar o que esta impôs que confirmasse.

A mãe sabia ler, e Violeta orgulhava-se disso! Mas letras, apenas desenhava as do seu nome. Todavia, o facto não a ajudou em nada. A professora desferiu-lhe reguada atrás de reguada sem medo que estas lhe partissem os ossos da pequena e trémula mão.

Era, portanto, proibido dar largas à imaginação, apreendeu Violeta e reteve a lição.

Um outro dia, a professora dissera alto e bom som para que toda a sala ouvisse: “Fedes a mijo!”, atirou, sugando o ar pelas narinas com manifesta expressão de repúdio. “Sai-me daqui! Vai embora e lava-te!”, projetara incomodada.

Violeta, envergonhada, levantou-se de cabeça baixa com as lágrimas quase a saltarem-lhe dos olhos e obedeceu. Abandonou a sala com vontade de não mais lá voltar.

Em casa o banho fazia-se numa bacia. Primeiro lavava-se a cabeça, braços e tronco, secava-se e só depois se lavava da cintura para baixo, na mesma água, na mesma bacia. Violeta era criança e sequer se atreve a garantir que lho faziam todos os dias, logo, feder a mijo seria inevitável.

No dia seguinte, os seus pés caminhavam rumo à escola enquanto a mente lhe suplicava que fugisse, que recuasse, que voltasse para trás, mas não para casa.

A aluna humilhada imaginou-se desviar caminho, imaginou-se no centro do milheiral denso e verde cujo odor, misto de terra, adubos naturais e verduras, conhecia de cor. Imaginou-se no interior de um talhão específico, aquele entalado entre um muro galgado de musgo e um riacho de águas límpidas. Imaginou-se fundir e sumir numa das histórias que abundavam na sua mente e ver o tempo passar, os ponteiros do relógio darem infindável número do voltas, noite e dia e um dia atrás do outro.

Mas a realidade era outra. Na boa verdade, se não apanhasse na escola, apanharia em casa. Na catequese também, mas esta parte só de ouvir dizer. “O Monsenhor tem uma palmatória com pregos!”, cochichavam. Mas ela, com ou sem pregos e apesar de lhe ter um medo de morte, nunca vira palmatória alguma.

A infância de Violeta fora pautada pela insegurança, pela humilhação, pela vergonha e pelo medo, principalmente.

Consciente de que sendo eles muitos irmãos e como tal cada um há de ter a sua própria versão da mesma história, sem floreados ou falsas memórias, esta é a realidade que sentiu na pele.

Apesar de hoje lhe soar distante, uma outra vida, a vida de uma outra pessoa num mundo com o qual há muito deixou de se identificar, esse ontem, ainda lhe ensombra os dias, puxando-a para trás e para esse abaixo de nada de outrora.

Não podiam ser mais frágeis os alicerces que sustentam uma mulher então de bem com a vida e aparentemente, só aparentemente, segura de si.

Posto isto, garante a protagonista, família numerosa nada tem do belo realçado nos livros, apregoado nas novelas, nos filmes ou instalado na cabeça das pessoas. Quando há muitos irmãos é cada um por si, e nem sempre o que mais se chega é aquele que mais precisa…

Violeta - Favicon Mandala.png

 

Violeta

Acerca de Violeta

Muitos adoram arroz de tomate e pataniscas de bacalhau, mas poucos confecionam o prato como ela. Portuguesa do Norte, criou este blog para partilhar o seu percurso até aqui, nada fácil, por sinal. Adora ler e escrever. Lê basicamente tudo a que tem acesso. E escreve para manter a mente activa; para testar limites da criatividade; para aprender com histórias e personagens; para dar vida aos anjos e demónios, mexendo em verdades inconvenientes, fantasiando um pouco e ousando também.

Enquanto houver sonho haverá esperança, ela acredita. Por isso, sonha, sonha, e vai sonhando…

O seu lugar

Tratando-se de pessoas, o meio da ponte não será o seu lugar. Ou as adora e abraça; ou as ignora e se afasta.

Onde a podem encontrar

Aqui! Às vezes, ela passa por cá…

Descomprimindo - Aquele dia de Verão e de Sol

Agora mais do que nunca todos sabemos que entediante soa eufemismo, tratando-se de uma família confinada entre quatro paredes. Volta e meia, um dia atrás do outro, semana após semana, já todos se arreliam com uma simples aragem ou solitário mosquito que passe.

Recuemos então ao século passado, e mais concretamente às férias de um certo Verão.

Nesse Verão, ao contrário do que vinha a ser hábito, não tínhamos reservado férias para fora. Iríamos de carro, sempre que o tempo o permitisse, à praia mais próxima.

Mas como o tempo não tem comando, este foi-nos trocando as voltas, inviabilizando plano com nevoeiros cerrados e nortadas que enregelam ossos.

Um dia acordámos e tudo o que mais desejávamos aconteceu: céu limpo e aquela oportunidade para aproveitar sol e mar.

Estavam, portanto, reunidas condições para um dia perfeito de praia.

Para aproveitar bem o tempo, chegámos ao destino ainda cedo. Mas já não havia um único lugar vago para estacionar. Ansiosos como nós, parece que todo o interior se tinha deslocado para o litoral.

À cata de um lugarzito onde pudéssemos estacionar com segurança, fomos avançando praia atrás de praia sempre para norte. Almoçámos primeiro e depois optámos por uma não concessionada, lá, onde Judas perdeu as botas.

Corajosos, pai e filho, fizeram-se ao mar.

Morta de calor e, consequência do bacalhau do almoço, salgado, a sede decidiu implicar comigo. Fui-me refrescando com spray de água termal e refreando a ânsia de beber.

Onde estacionar havia, mas casa de banho… Enfim, teria de ser como Deus manda, pelo que fui molhando o bico, só.

Mas como grão a grão enche a galinha o papo, fico ao ponto de explodir num curto espaço de tempo.

Para piorar vem o meu filho, molhado e mais gelado do que se tivesse regressado da Antártida, e salta-me para cima.

Ia tendo uma síncope.

E pronto, quando o dia começa mal a tendência é ir piorando, pelo que decidimos pegar na tralha e abandonar a praia ainda o sol estava alto.

Na berma da estrada estava uma senhora a vender batatas, alhos, cebolas e outros que tais cultivados na horta. Se se mantinha ali o dia inteiro tinha de haver casa de banho perto, pensei. “Olhe, aqui casa de banho não tenho, mas sempre pode ir além à horta!”

Inclinei-me, olhando e avaliando terreno nas costas da senhora. Aninhada entre pencas ou couves, da cintura para baixo, ninguém iria ver. Aceitei logo.

Como a minha condição de género não me permite direcionar micção, aninho-me e o dito fluído sai-me para o lado.

Sem condições e sem papel, emergi de entre as verduras com um carreiro molhado perna abaixo, mas aliviada e de rosto levantado.

Comprei batatas e cebolas mais para disfarçar.

A distância entre o ponto de venda e o carro era curta, mas mais do que suficiente para que a… humidade da minha perna sugasse a poeira.

“Ó mãe, olha que preta está a tua perna!”

“Nem mais um pio, estamos entendidos?”

E pronto, foi assim o meu tão desejado dia de sol.

Quem nunca sentiu aquela... aflição, no sítio errado e à hora errada?...

Violeta

Uma história, um novo conceito e uma experiência ímpar

Escreveu um livro? Excelente! Então, e agora que o tem pronto, o que pretende fazer com ele? O ideal seria que uma editora tradicional apostasse em si e o publicasse, não é? Sei lá, uma das que integram o grupo LeYa, a Porta Editora, a 20/20 Editora, a Editorial Presença; Club do Autor… Mas como lá chegar? Que fazer para que o seu manuscrito, o seu e não outro qualquer, seja lido?

Na falta de agente literário que o represente enquanto autor, terá de se preparar para um processo bem complicado e moroso.

Mas falemos agora de si e do seu livro: Está seguro da sua capacidade enquanto contador de histórias? Consegue definir qual o género literário do seu livro e qual o seu público-alvo?

Bem, mesmo tratando-se de um romance/história de ficção, visto de uma outra perspectiva, sempre poderá ser outra coisa qualquer. Quanto ao público-alvo, nunca será fácil indicá-lo e quantificá-lo com precisão. Embora não seja perda de tempo pensar no assunto, a boa notícia é que não tem de se preocupar com isso. Antes de tudo o resto, preocupe-se em como vender a história à editora.

Diz-se de máxima importância que a história faça mergulhar o leitor numa experiência que de outra forma não teria acesso. Logo, uma história, um novo conceito e uma experiência ímpar. Quem lê quer aprender, quer um sonho maior, uma experiência invulgar, um diferente e novo olhar sobre as pessoas, as coisas e o mundo, quer fantasiar, quer, no fundo, ser surpreendido de alguma forma. E faz sentido, não faz?

E o seu livro traz algo de empolgante ou de novo?

Se acha que sim, sugiro que arrisque uma frase sobre a sua história, apenas uma frase.

Se com essa frase não conseguir fazer soar algo de muito interessante, nesse caso, o melhor será ponderar antes de contactar uma editora. Mas não desanime, afaste-se apenas da história por um período considerável de tempo. Depois, e só depois, leia-a atentamente, refazendo, melhorando, lapidando e dando força ao conceito. Essa pode ser a solução, caso não pretenda abandonar a ideia. Há sempre margem para melhorar, convém não esquecer. E eu que o diga!

Mas a sua história é genial, o seu livro está pronto para ser publicado e até já sabe qual a editora adequada, certo?

Eu própria já andei à deriva, já fiz e disse o que não devia. Enfim, sinto-me envergonhada por ter asneirado tanto.

Não estava a agir da forma correta, percebi, logo parei e reflecti, sem nunca ter deixado de escrever.

Depois investi numa pesquisa aturada acerca das editoras e de como as abordar de forma adequada. Julgo não ter apreendido e aprendido tudo, nunca se apreende e aprende tudo, mas julgo saber o bastante para pelo menos servir de ajuda a alguém.

Agora vamos ao que importa.

Embora todas as editoras tenham os seus próprios e exclusivos requisitos, os critérios mais comuns são: carta de apresentação, sinopse alargada e capítulos de exemplo.

Carta de apresentação – esta deve ocupar no máximo 1 página. É uma ferramenta fundamental para qualquer autor que pretenda publicar. O importante é não inventar qualidades ou formação que se não possui e nem pedir desculpa pelo facto. Sonhos antigos e evolução na escrita só interessa ao Menino Jesus. Não divagar de todo. Seja-se pragmático e breve. O menos é mais, quando nada existe que mereça destaque. É suposto ser-se julgado pelo potencial do livro, não pela biografia, a menos que esta mereça ser destacada. Em suma, espelhe o tipo de autor que é, seduzindo com as palavras. Mais do que uma simples nota biográfica do autor, esta carta de apresentação, deve seduzir e convencer o editor a pedir-lhe o manuscrito completo. Importa, antes de mais, demonstrar o seu potencial como vendedor do seu próprio produto: o seu livro;

Sinopse alargada – breve resumo da história (não mais que 1 ou 2 páginas). Esta sinopse é necessária, por ser de fundamental interesse do editor ver, do início ao fim, o desenrolar do livro. Ela não só deve transparecer a evolução da história como deve, inclusive, revelar o fim. Mas atenção!, não confundir esta sinopse alargada com a que aparece na contracapa. Essa outra criada para a contracapa, destina-se ao leitor, uma espécie de isco concebido para o empolgar, para lhe despertar atenção, interesse, desejo e ação (mais conhecido no Marketing como AIDA, uma espécie de fórmula mágica que gera repentina necessidade de consumo);

Capítulos de exemplo – enviar capítulos iniciais como amostra do livro, idealmente os três primeiros capítulos (nunca excertos de capítulos aleatórios, mesmo que se encontre neles bons textos ou partes que considere melhores).

Nota importante: inclua nessa primeira abordagem o que representa o seu livro; o que o torna diferente de qualquer outro, qual o público-alvo e como planeia chegar até ele. Basicamente, quais as suas próprias ferramentas e ideias para divulgar, promover, comercializar e vender-se a si enquanto autor e à sua obra. Ter uma página nas redes sociais com milhares de seguidores, repito, milhares de seguidores, pode ser uma mais-valia, mas não a chave de acesso à tão desejada publicação numa editora tradicional ou garantia de vendas. Muito por conta do filtro social que em rede se vai perdendo, eu própria não tenho uma boa relação com as redes socias. Este blog é uma excepção. Este aqui é um lugar onde ainda me sinto segura, onde me permito pensar alto, onde comigo converso e onde me confesso. Não penso desistir dele, a menos que uma forte razão a isso me obrigue.

Adiante e de volta à questão.

Escrever um bom romance, desenvolver uma boa história de ficção, não será tão fácil quanto à partida possa parecer. O que nos empolga a nós e a quem nos é chegado, pode ser tão poucochinho que sequer merece atenção de um editor.

Mas se se sente confiante e à altura do desafio; se, inclusive, passou a primeira etapa e conseguiu que lhe fosse pedido o envio do manuscrito completo, isso é um começo, é bom, mas apenas uma luz ao fundo do túnel.

Mais tarde (e poderá ser muito mais tarde), caso venha a ser aprovada a publicação do seu livro, caso lhe seja proposto contrato e lhe sejam dadas garantias dos direitos autorais, então, está de parabéns!, acaba de dar o primeiro passo.

Ultrapassada esta tão difícil e complicada e demorada primeira etapa, baixada a poeira e apaziguada inicial euforia, e mesmo antes de assinar contrato, deve estar preparado para deitar mãos à obra, literalmente!, pois o editor dar-lhe-á conselhos sobre como aprimorar o seu manuscrito. É nesta altura que você, autor e criador da sua obra, percebe que essa sua… obra-prima não passa de um inicial rascunho.

Se ainda não deu o primeiro passo, mas tenciona fazê-lo, questione-se primeiro:

O que traz o seu livro de novo?

Que benefício ou experiência oferece ao leitor?

Irá ele influenciar, fazer pensar, alertar consciências ou mudar a vida de alguém para melhor?

Quais as particularidades e conteúdos especiais se propõe oferecer enquanto autor?

Posto isto, se ainda se sente capaz, se ainda considera o seu livro perfeito e pronto para ser avaliado, se a sua aposta passa por uma editora tradicional e está preparado para enfrentar o que aí vem, pois muito bem, então prepare-se para sofrer. Vista a sua melhor armadura de ferro e prepare-se para testar esse limite: o limite da sua dor.

Espero ter ajudado, uma pessoa que seja, e já fico feliz.

Para si, desejo a melhor das sortes, de coração!

Para mim, a luta continua. Enfim, há quem medite, quem oiça música, quem dance, quem opte pelo isolamento, há quem faça disparates, quem aposte tudo em viagens, há quem se desgrace por completo e há quem tantas outras coisas que desconheço, mas eu, com a regularidade que a vida me vai permitindo, eu, eu… vou escrevendo e vou aprendendo.

A minha missão é simples: escrever pelo simples prazer de o fazer.

A minha visão é tocar no coração de um número considerável de pessoas e, um dia, porque não?, também eu chegar a uma editora tradicional.

Quanto aos valores, tenciono manter-me fiel à verdade e à simplicidade, dando largas ao prazer inato de quem ama e sente essa estranha e maravilhosa necessidade de se expressar por escrito…

Com amor,

Violeta

Violeta - I love read.jpg

E como tudo parou...

Parámos, pensámos e percebemos ser meros figurantes num mundo repleto de histórias com desenrolar e fim incertos.

Entre quatro paredes, entramos numa espécie de remoinho onde o início se vai confundindo com o fim; onde uns procuram a rotina e outros sair dela; onde uns lutam contra o excesso de peso e outros definham por falta de alimento; onde uns pontapeiam a sorte e outros cuja sorte acaba de passar ao lado; onde uns se vão aproximando e outros a quem a proximidade acabará por separar…

É o bicho, é o bicho…

E quando menos se esperava, vá vem o maldito inimigo invisível ensombrar-nos a vida!

Traiçoeiro e sorrateiro, ele anda à solta por aí, anda a espalhar o terror e a desconfiança, a destruir sonhos, a vedar caminhos, a fechar portas, a tirar certezas e a roubar afectos. Gatuno!

Mostra-te ou desaparece, desgraçado! Mas não nos impeças de viver, de amar e de abraçar. Não nos deixes tão limitados e mais à deriva, encurralados entre quatro paredes.

Desinfecta daqui, ó… bicho, que eu já nem te posso ver! Ups! Esqueci-me que és invisível, tu pairas no ar que respirámos. És tão cobarde, sabias?

Mas eu sei que no fundo sabes, que seremos nós os vencedores; que se recuámos e nos resguardámos agora é para depois te derrubar.

É o bicho, é o bicho

Vou te derrubar

Mais valente eu sou…

Violeta, e quem canta os seus males espanta

Violeta - Bicho.jpeg

A mania das limpezas em tempo de pandemia

Numa altura em que o ar que se respira nos assusta, para além do isolamento e distância social, importa manter tudo limpo e desinfectado, é um facto. E é aqui que entro eu e esta minha mania das limpezas. Por onde passe ou onde quer que deite o olho, lá vai uma ensaboadela ou banho de lixívia. Enfim, cada tolo com a sua mania. Eu tenho esta como uma questão de conforto, paz interior e bem-estar pessoal, ainda mais por estes dias.

Mas não limpo o que está limpo, como se vai dizendo cá por casa. Limpo o que carece de limpeza, e ponto!, ou não fossem tarefas domésticas o que de mais parvo se encontra na face da Terra. O que ontem se fez, faz-se hoje e amanhã será mais do mesmo, porque se repetem os acordares, as refeições, os banhos, as saídas?, as mudas de roupa e por aí adiante, que é como quem diz: uma mesmice que exaspera os inaptos e inconformados.

A ser sincera, invejo os despreocupados! Invejo-lhes o quero-lá-saber, o isso-fica-para-depois e invejo-lhes, sobretudo, a total ausência de obrigação e compromisso. Quebrem-se ideias preconcebidas e regras estúpidas! Ah, como eu gostava de o conseguir!

Arrumações à parte, tenho sentido mais a solidão por estes dias do que quando estou efetivamente só. Com todos os três confinados entre quatro paredes, ficando cada um entregue aos seus afazeres e idiossincrasias – e já lá vão trinta dias –, não disponho das condições e daquele tempo só meu para acudir a esta minha necessidade de me abstrair e escrever.

Criar este Blog foi uma espécie de compromisso comigo própria: o de partilhar a minha vida passada. Mas para mergulhar nesse passado, tal como para escrever/desenvolver contos, romances ou outro tipo de narrativas, é-me fundamental elevado nível de concentração, o que só acontece tendo disponibilidade de tempo e total ausência de movimentos e ruídos, coisa que tem andado à solta pela casa.

Desejar, desejava atingir o nível dos bons narradores. Mas não consigo mergulhar noutra vida sem me abstrair da actual e da actualidade, eis a razão pelo qual não tenho acrescentado capítulos neste blog, Projecto Violeta, ultimamente.

Para as várias regiões de Portugal continental e ilhas, assim como para o do resto do mundo (Reino Unido; Espanha; França; Brasil; Estados Unidos; Alemanha; Angola; Bélgica; India; Suíça; Canadá; Irlanda; Noruega; Áustria; Holanda; Itália; Macau; Camboja; Jersey; Somália…), e para quem por cá vai passando pontualmente, para todos sem excepção, um grande bem-haja.

Ainda tenho muito para contar. Situações isoladas serão convertidas em contos, histórias curtas narradas na primeira pessoa. Contá-las-ei como se as verbalizasse debruçada sobre o parapeito da minha janela, nesta minha janela em forma de Blog chamado Projecto Violeta…

Saúde e protejam-se, emitando aquele coelhinho que permanece na toca.

A todos, votos de uma Santa e Feliz Páscoa, na medida do possível

E porque sois fracos, auxiliai-vos!

Março de 2020.

A rotina altera-se. A faculdade onde o meu filho estuda encerrou no dia 10 de Março. A empresa colocou o meu marido a trabalhar a partir de casa. A minha ideia de negócio é adiada ou remetida para o plano dos sonhos.

Mas não se trata apenas de nós.

Em todo o Planeta, a vida fora de portas aquieta-se, porque o inimigo invisível anda à solta por aí. E não se trata de ficção. O Homem desacelera, enquanto a Mãe Natureza respira, regenerando-se um pouco em cada continente.

Não importa onde a onda teve início. O importante é ter noção de que fomos nós, o Homem, quem a desencadeou, porque somos demasiados em número; porque somos demasiado gananciosos; porque destruímos para construir; porque não olhámos a meios para atingir os fins; porque maltratámos quem nos acolhe; porque somos fracos… “E porque sois fracos, auxiliai-vos!”, diz a Mãe Natureza, com a serenidade de quem manda nisto tudo.

Quererá a Natureza menos e melhores seres humanos?

Confinados entre quatro paredes, o tempo ganha outra extensão, estendendo os dias, entorpecendo-nos o corpo e adensando-nos o pensamento.

E nunca a frase “vá para fora cá dentro” fez tanto sentido.

Por estes dias tenho pensado nos meus irmãos, nos filhos e netos deles. O estranho é que apesar de todos sabermos onde encontrar os restantes, é como se tivéssemos perdido paradeiro entre nós. Se o sangue é aquilo que nos liga e o afecto o que nos une, o primeiro mantemos por razões óbvias, mas o segundo vai-se perdendo a cada dia que passa.

Paulatinamente e ao longo dos anos, tornámo-nos ausentes, distantes, indiferentes e até desconhecidos entre família. É como se existisse uma barreira física, que ninguém se atreve a transpor. Talvez esta clausura obrigatória nos leve a reflectir e nos reaproxime sem perdermos tempo a discutir assuntos antigos, debates e razões perecidas que não levam ninguém a lado nenhum. Talvez, passado este vendaval, não se perca mais tempo a esgrimir belezas e vaidades, a medir inteligências e a apontar as particularidades de cada um como defeitos ou pecados mortais. Talvez nos voltemos a juntar em festas e não apenas em funerais.

No fundo, sendo nós demasiados, tendo seguido diferentes rumos, vivido experiências e adquirido conhecimentos em nada semelhantes, fizemo-nos estranhos entre família. Enfim, uma espécie de texto repleto de sujeitos, mas sem verbos, predicados e sem assuntos em comum. E o que mais dói em se ter muitos irmãos, é viver na sensação de que se não tem nenhum. Mas para se resolver mal-entendidos e reconstruir afectos, alguém terá de dar o primeiro passo. Enfim, enviei mensagem a alguns. E dos que conservo contacto telefónico actualizado, esses, mantêm-se serenos e a salvo!

E se no fim desta pandemia as pessoas se reaproximarem, familiares ou não, é porque ainda há esperança para a humanidade.

Como referi logo no início deste meu enredo baseado numa história verídica, cada um dos meus irmãos há de ter a sua própria versão da mesma história. E em cada uma delas haverá uma parcela de verdade. Gostava que lessem a minha versão, cada episódio desde o início; que contassem as vezes que chorei enquanto ria; quantas foram as feridas que o meu humor escondeu; o quanto quis que me vissem, aceitassem e aplaudissem; em quem se tornou aquela criança que, tendo nascido  e crescido entre eles, tornou-se uma mulher que desconhecem por completo.

Tenho para mim que esta crise pandémica vai acabar por mudar as pessoas e o comportamento destas face ao outro e ao mundo. Se a mudança acontecer, que irá acontecer, de uma forma ou de outra, que esta comece de dentro para fora: do seio da nossa família para a restante população e do interior do nosso lar para o resto do mundo…

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Tragic and comic life

Quem desabafa o que quer, sujeita-se a conselhos que nem ao diabo interessa.

Tem cerca de dezanove anos, o breve episódio.

Exausta e com as lágrimas presas por um fio, despia o meu filho ainda bebé. “Já nem sei o que fazer, doutora, ele berra a noite toda”, disse eu à pediatra pela milésima vez.

“Excelente desenvolvimento; reação aos estímulos não podia ser melhor; tudo normal, tudo muito bem!”, revelou pouco depois, toda ela feliz e contente.

Paguei a consulta e lá me vim embora sem resposta e sem solução à vista, ou melhor, com mais um carimbo na caderneta, cuja média de consultas já ultrapassava a uma por mês (sem contar idas a hospitais, clínicas privadas e outros médicos de clínica geral!).

É que isto de médicos, nunca fiando, e com uma série de palpites e diagnósticos a choverem de todas as frentes, fui à bruxa!

Não acreditando nelas, pero que las hay, las hay, decidi bater à porta de uma supostamente infalível. “Muito assertiva e de confiança, porque hoje em dia não se pode fiar em toda a gente, se for… trabalho feito, ela trata-te do assunto!”, garantiu-me uma pessoa com quem tive a infeliz ideia de desabafar.

Bem, se isto de bruxas equivale às superstições, o melhor seria permanecer na ignorância. Mas como estava desesperada e como aquilo do… trabalho feito, moía-me a cabeça, cedi.

Abrigando o menino do tipo de chuva molha-tolos, no lusco-fusco de uma sexta feira, pergunta aqui, pergunta ali, bati à porta da bruxa.

“Hoje é sexta feira!”, berrou uma senhora debruçada sobre o parapeito de uma janela vizinha.

Aponto-lhe um olhar meio de viés, sem nada proferir.

“É que às sextas feiras ele não atende, sabe? Foi levar os… trabalhos lá para as bandas do mar!”, projectou.

Meio que envergonhada, regresso a casa, pensando na bruxa, que havia de ter uma perna extra como o fiambre, ou não fosse ela um ele, um bruxo, portanto.

E não é que volto lá no dia seguinte! E não é que havia fila!

Chegada a vez da minha… consulta?, sento-me com o menino ao colo. O sujeito começa a balancear-se, revira-me os olhos, encadeia uma ladainha e eu faço de tudo para conter aquele ataque de riso. Se há aqui alguém que deve respeito a alguém, serei eu a ele, pensamento que fui interiorizando para me conter, ou não me tivesse sentado de livre e espontânea vontade naquele banco, no interior daquele cubículo, cujo efeito decorativo e cacofonia de cheiros se adivinhava capaz de ressuscitar um morto.

Adiante.

Como orações e canja de galinha nunca matou ninguém, cumpri o ritual, queimando incenso e lendo a ladainha que o sujeito rabisca à pressa num papel.

A minha mãe, ainda viva na altura, diz-me, entre o conselho e o ralhete: “Minha filha, tu livra-te disso! Sê paciente e dá tempo ao tempo!”.

Moral da história: há situações para o qual não existe via verde. Às vezes, o remédio, é dar tempo ao tempo. Sem forçar e sem curas milagrosas, com o tempo, e sem sabermos como, a coisa acabará por se resolver…

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Também se aprende a Amar

Meu querido marido, feitas as contas, já lá vão três anos de um namoro às três pancadas e mais trinta e três de um casamento que foi realizado à pressa.

E como o tempo passa…

Acredito no amor à primeira vista, como acredito que também se aprende a amar.

A verdade é que sequer sei ao certo quando me apaixonei por ti, ou se me tenho vindo a apaixonar cada vez mais ao longo dos anos. Reservado e cauteloso nas palavras que proferes, verbalizas amor através das ações, do comportamento exemplar e da eloquência desse teu olhar que tantas vezes fala por ti.

Sabes, se no início não te fui fácil, foi por insegurança e por medo. Eras homem feito, maduro e confiante, enquanto eu ainda procurava entender-me, aprender a gostar um pouco de mim para poder amar alguém. E esse alguém só podias ser tu.

Não raras vezes, esqueço que as minhas dores também te pertencem. Mas a verdade é que somos dois edifícios com diferentes alicerces. Ao contrário dos bem ancorados como julgo serem os teus, os mais frágeis são os primeiros a desmoronar e os que mais demoradamente recuperam. A principal diferença entre os nossos, é que o meu se vai apoiando no teu. Enfim, consciente de que sou o elo mais fraco, tento compensar-te, a ti e ao nosso filho, sendo-vos devota.

Foi-nos puxado o tapete por diversas vezes, que foi, sem dúvida, mas se em todas elas não caímos, foi porque nos apoiámos mutuamente. Entre o tanto aqui narrado e o outro tanto que só nós dois é que sabemos, vimos a forma e a cor do fim do mundo. Sobrevivemos! Incólumes naquilo que nos une, aconteça ele quando acontecer, ficará a certeza de que o nosso foi um casamento feliz na vida toda.

Numa altura em que tudo é descartável ou muito pouco duradoiro, falar de casamento feliz para a vida toda, soa ficção, letra de música, ou retórica de histórias começadas por era uma vez, cujo fim se resume a um claro e não menos previsível e foram felizes para sempre.

Mas há quem o consiga.

Apesar de tudo, nós conseguimos!, que fique registado.

E não, não existe poção mágica para um casamento perfeito e feliz para a vida toda. Nunca uma das partes será responsável pelo sucesso ou pelo fracasso de um contracto feito a dois. Tenho para mim, que investir na liberdade com base no respeito e responsabilidade, pode estar na base desse sucesso. Senão vejamos, o primeiro passo para matar um passarinho é prendê-lo na gaiola, certo? Então, travessuras da vida à parte, o fim de qualquer relação começa quando uma das partes põe em causa a liberdade da outra. Comida caseira apurada no ponto, também pode ser a chave para um casamento bem-sucedido. Ou seja, se ambos se alimentarem bem em casa, nunca fast food será opção fora de portas, se é que me faço entender.

Mas com Internet e tecnologia ao alcance de todos, nunca foi tão fácil chegar a alguém e nunca a tentação morou tão perto. Sob a proteção de um perfil nem sempre claro e transparente, estando do outro lado do ecrã, perde-se filtro social e por isso opina-se, enxovalha-se, cerca-se e também se assedia.

Sabemos disso, não sabemos, marido?

Ainda há pouco bloqueaste a catraia que, desconhecendo o quando e o como conseguiu o teu contacto via WhatsApp, te queria fazer as… “unhas”. Ao que eu te disse, em jeito de brincadeira: “Leva preservativo, caso precises recorrer à tal manicure!”. Ou seja, brincámos com o assunto, rimos com vontade de rir, e depois tu mandaste-a às favas, sem que eu o sugerisse.

Cá para nós, que ninguém nos ouve, a sujeita nada percebia de unhas, pois não?

Em suma, não damos importância, porque dar importância é dar força a quem não importa. E ambos sabemos quem importa. Ambos sabemos respeitar a pessoa que permanece ao nosso lado para o que der e vier.

À pressa, sem curso e sem preparação prévia, captámos desde o início qual a dinâmica de uma vida conjunta. Somos diferentes, não podíamos ser mais diferentes, como tão bem o sabes, o que nunca permitimos foi que essa diferença chocasse e nos separasse.

E dos trinta e três anos, que venham outros tantos!

Sem mais rasteiras, que já sobra das que tivemos, avancemos com a mesma liberdade e com o mesmo equilíbrio entre o respeito e a falta dele, se é que as restantes pessoas conseguem perceber este nosso trocadilho.

Obrigada, meu querido marido, obrigada por me amares quando ninguém me amava; obrigada pelas tuas precisões imprecisas, pelo teu jeito passivo, pelas tuas respostas indefinidas (esse tanto faz ou como queiras, que tanto me irrita); obrigada por seres tu e obrigada por nunca te teres fingido perfeito…

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De bebé a jovem universitário foi um piscar de olhos

O meu filho… A primeira noite inteira de sono dele, foi de desassossego para mim, que me levanto e o escuto de perto frequentes vezes, controlando o impulso para o não sacudir. Para além de alérgico às proteínas do leite de vaca, também era ao ovo e ao peixe, entre outras alergias menos significativas. Dizê-lo agora pode parecer banal, mas não o era há vinte anos. Agora os potenciais alergénios estão destacados, vêem-se a negrito nos rótulos. Alimentos alternativos até pecam pelo excesso. Mas na altura tudo era escasso, incluindo informação. A alergia em si era coisa estranha e rara entre as pessoas. “Coitado do menino, é doentinho”, diziam. Eu ficava danada, mas fazia descaso. No processo, a ignorância delas foi a minha maior dificuldade.

Atravessámos uma fase em que alimentos alternativos e comida saudável viram moda. Mas o que é isso de comida saudável? Produtos embalados onde a palavra vegan ou biológico se vê em destaque, serão esse tipo de alimentos os mais saudáveis? Talvez o sejam. Para quem vive nas grandes cidades, aceito e até compreendo. Já para pessoas com as minhas raízes, saudável é o que se apanha numa horta isenta de fertilizantes, se lava e se mete diretamente na panela, sem banho de conservantes e sem passarem pelo plástico. Produtos biológicos em prateleiras de supermercado, só pelo simples facto de se encontrarem embalados em plástico, não deveriam ser considerados biológicos. Mas sendo esta uma opinião pessoal, vale o que vale. Em suma, se saudável é tudo aquilo que se apanha na horta, então, muito pouco do que circula por aí será saudável.

A alergia do meu filho levou-me a ser mais consciente relativamente à alimentação, aos alimentos e às embalagens que colocava no carrinho. Muito do que consumia, perdeu lugar na minha despensa. Quando no infantário, e posteriormente no colégio, aponto salsichas, fiambres, pão embalado, tostas, papas para crianças e bolachas como alimentos perigosos e me olham como se eu fosse um bicho com sete cabeças, percebo que a maioria do consumidor ingere sem noção daquilo que consome. Tive de ser paciente e criativa também. Bolos e bolachas sem derivados de leite e sem ovos, eram confecionados por mim cá em casa. Até bombons cheguei a fazer. O que nunca permiti foi que o meu filho se sentisse o “doentinho” e por isso excluído.

E é aqui que entra a Natureza e o quão sábia é!

Se me dissessem que é instalado um chipe nas crianças de algum modo limitadas, eu acreditava logo. A dada altura deixei de me preocupar tanto, porque ele próprio, e melhor do que qualquer outra pessoa, sabia o que podia comer ou rejeitar directo. E isso é maravilhoso! Se por um lado nos aquieta a nós pais, por outro, dá poder de decisão, responsabilidade e autonomia a eles.

Mais tarde, o peixe e os ovos foram-lhe incluídos na dieta. Mas relativamente ao leite não obtivemos tão bons resultados. O protocolo de indução à tolerância das proteínas do leite de vaca não foi levado até ao fim. Ele pura e simplesmente não colaborou “A doutora diz que é para teu bem”, tento convencê-lo. “A doutora não sabe nada! Eu, eu é que sei, porque sou eu que sinto!”, defende-se, acusando sensação de asfixia compreendida entre o esófago e a garganta. E pronto, fomos forçados a desistir.

Em conversas à mesa, nunca existiram assuntos tabus cá por casa. O que existiu, dependendo da idade dele, foram diferentes formas de abordar e esmiuçar os temas e as questões. Sempre conversámos com ele como se de uma pessoa crescida se tratasse. E ele cresceu um bom miúdo. Talvez um pouco impulsivo como a mãe e não tão ponderado como o pai e como eu gostaria que fosse.

Pai e mãe perfeitos é mera utopia. Não existe e ponto. Todavia, atrevo-me a apontar a fórmula antiga como a mais adequada: uma mão dá o pão, a outra a educação e ambas abraçam. Trata-se de atenção, cuidado, carinho e disciplina, no fundo. Feito o balanço, o mais difícil foi e é dizer não. Mas mais difícil do que dizer não, é fazer prevalecer esse não. E ele ouviu muitos nãos, nãos mesmo! No fundo demos-lhe o que entendemos melhor: melhor infantário da zona; melhor colégio; academia de música; aulas de natação, hipismo… Ele adora cavalos! Onde terá ido buscar essa paixão por cavalos é que desconhecemos. Ele agora está no ensino superior. Distante de nós, na sua vida académica, está a construir as próprias memórias, a adquirir conhecimento e a preparar-se para o futuro. E eu aqui às voltas com a síndrome do ninho vazio. Dóiii…

Enfim, daria a vida pelo meu filho sem regatear…

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Em jeito de balanço

Para quem não sabe, este é um blog biográfico, uma espécie de enredo baseado numa história verídica, na minha vida; a de Violeta, mulher como tantas outras por aí.

Apoiada no arame de um equilibrista sem rede, iniciei pela infância. Não pretendo fazer desse caminho caminhado e de outras ruelas sinuosas que percorri, pares de meias atulhadas e esquecidas no fundo do gavetão. Esgravato nessas feridas e nesse meu passado como quem exorciza demónios, porque pretendo deixar em palavras escritas experiências e factos que me são difíceis ou impossíveis verbalizar.

Em fase de crescimento – processo natural –, quando as cobras se sentem apertadas na sua pele pesada, feia e suja, é de sua natureza libertar-se dela, substituindo-a por uma outra nova e limpa com desenhos bem definidos e cores vibrantes. Pudesse eu e faria o mesmo em relação a mim e ao meu passado: roçaria a nudez do meu corpo numa superfície áspera e librar-me-ia dessa luva, pele densa e danosa que se cola a mim tanto quanto a repilo.

Por estes dias fartei-me de entrar e sair neste blog; fartei-me de escrever e apagar; fartei-me de mim e fartei-me de remoer um dos piores finais e inícios de ano desta minha passagem por este lindo planeta azul.

Tempo, precisei de um tempo de introspecção.

“Ano novo vida nova”, dizem por aí. Tomara este novo ano me traga a tal vida nova, porque só uma outra vida me faria sentir digna do tanto que possuo (saúde, comida, casa e (aquele tanto que sinto pouco) afecto).

Com o tempo frio e chuvoso e os dias mais curtos, a melancolia embala as pessoas, tornando-as mais reservadas e esquivas. E eu não serei excepção. Enquanto aguardo a época alta, esse período pujante de eventos e casamentos, vou pensando no que fazer, em como ser produtiva e rentável sem prejuízo da rotina e dos afazeres cá por casa.

Algo está para acontecer, e não se trata de um palpite. Esta minha natureza insatisfeita e inquieta, avisa-me quando o fanico me ronda. E quando o fanico acontece, ninguém me segura. “Deixa-te disso! Se aguentámos até agora, vamos conseguir”, dirá o meu marido. Mas ao filho ainda falta este último ano para terminar a licenciatura e depois virá o mestrado… Às vezes penso emigrar. Talvez no estrangeiro seja tão nova como me sinto e não tão velha como diz olhar alheio; talvez valorizem este meu vício de dar o máximo ainda que em tarefas de pouca monta; talvez me inscreva nos cruzeiros e me aventure por mares calmos e não revoltos; talvez encontre a tal paz e grandeza que desconheço; talvez…

Relativamente a este espaço e a esta narrativa tão minha e pessoal, tudo se irá desenrolar como até aqui: sem floreados, sem desvios e sem rede, será tão a cru como crua a vida se me tem apresentado.

Recuando a 2019, situações e tristes factos que julgava extintos, acontecem em pleno século XXI:

Violência doméstica, flagelo sem fim à vista;

Violação e abuso sexual a menores, a ponta do icebergue;

Assédio sexual e moral no local de trabalho, um crime que passa impune;

Poder e desigualdade salarial, realidade que beneficia o designado sexo forte;

Protestos, manifestações, revoltosos e criminalidade, é a intolerância e desigualdade social em crescendo;

Negligência médica, com a tecnologia e meios de diagnóstico ao dispor, inadmissível o nascimento de um bebé com malformações (talvez por já ter vivido o pesadelo, doeu-me e não pude deixar de sentir vergonha alheia);

Discriminação social, ninguém assume apesar de todos a praticarem de uma forma ou de outra;

Alterações climáticas, responsabilidade de todos;

Pobreza envergonhada, continua a ser aquela que não conta e nem interessa falar…

Violeta, às voltas consigo própria

Pôr do Sol.jpg

Bom Ano 2020!

Ama sem idade;

Vive fora da caixa;

Ousa quanto possas;

Aprende sem limites;

E transmite quanto sabes.

Aquilo que somos, temos e sabemos, faz mais sentido quando partilhado.

Se quiseres, queiras tudo;

Se fores, segue até ao fim;

Se fizeres, faz o teu melhor;

E enquanto viveres, sejas feliz, muito feliz…,

Violeta

Violeta - Bom Ano 2020.png

Pai Natal, vê lá se não te esqueces de mim outra vez!

Com a passagem de ano a morder-lhe os calcanhares, eis o Natal aí à porta.

O Natal de agora pouco tem daquele outro Natal da minha infância. Naquela altura o Pai Natal sequer existia no meu imaginário. Comemorava-se o nascimento do menino nas palhinhas deitado.

Era eu menina, sonhava com o Natal o ano inteiro!

Na manhã de 25 de dezembro, vivia instantes de pura felicidade. Uma única vez por ano, sentia-me em pé de igualdade com os restantes elementos da família. Porquê? Porque a criança, que passava a vida a esconder-se pelos cantos como quem pede perdão ao mundo e às pessoas por ter nascido, era tida em conta. Línguas-de-gato, chocolates Regina em forma de guarda-chuva ou figuras de natal, eventualmente loiças em tamanho reduzido ou panelinhas, independente do que fosse, tudo se repetia em doses iguais. Não haviam beneficiados, prejudicados ou esquecidos.

Com uma mesa extensa e farta, o Natal lá por casa era efetivamente para todos!

Na véspera brincava-se ao Bom Barqueiro; à roda do Manel Tintim ó Manel Tintão; ao esconde-esconde e até ao botão.

Depois cresci. E com a idade o Natal foi perdendo aquele significado. A magia de um simples acreditar foi-se desvanecendo, dando lugar ao consumo desenfreado.

“Se não os podes vencer, junta-te a eles”, diz o ditado e nós assim o fizemos. Sem crianças anos a fio, deixámo-nos levar pela moda das luzes, do bulício e do consumo, deixando Menino Jesus para segundo plano.

Mais tarde, quando fui mãe, repensei a quadra natalícia. Queria que o meu filho sentisse a magia do Natal; que também ele esperasse o ano inteiro pelo instante de pura felicidade que era aquele acordar num dia especial. Mas como não podia ser eu contra o mundo, dou ao Pai Natal acesso à minha casa através da chaminé. A dada altura até minto em sua defesa. “Mãe, o Pai Natal existe mesmo?”, perguntou-me o meu filho ainda menino. “Claro que existe!”, respondi-lhe prontamente. “Tens a certeza?”, insistiu, e eu não me descosi. “O meu amigo disse que não existe Pai Natal coisa nenhuma!”, atirou enfurecido, antes de amuar e se fechar no quarto. O que fiz? Dei-lhe tempo, deixei-o reflectir, pensar melhor, bracejar e resolver os próprios dilemas. “Se o teu amigo não acredita, então, o Pai Natal não existe!”, admiti, após tempo que entendi suficiente. “Filho, o Pai Natal só existe para quem acredita. Essa é a magia do Pai Natal!”, disse, substituindo Pai Natal por Menino Jesus no meu pensamento. “Enquanto tu acreditares, ele irá existir. É só isso que te posso garantir”.

Sabes, “intruso” Pai Natal, como terminou o episódio?

Pois bem, estávamos os três à mesa, quando ele se pronunciou: “Mãe, eu acredito no Pai Natal!”, disse ele, tão determinado que até eu própria acreditei em ti. A ideia fez-me sorrir.

Não lhe mentiste, deste-lhe a escolher, dir-me-ás tu ou alguém por aí. E sim, é verdade. Eu dei-lhe a escolher. Ele é que decidiu fazer a escolha certa. E manteve-a até não mais fazer sentido, o meu filho maravilhoso!

E agora nós, Pai Natal.

Mas o que é isso de tu levares a fama, sendo nós os pais a fazer verdadeiros milagres para continuares bem-visto?

E as crianças que nada recebem? E eu? Sim, e eu?

Pai Natal, quando a oferta é tão mais escassa que a procura, quem tem um cargo não se pode dar ao luxo de ser incompetente, estás a ver?

Tiraste o lugar ao Menino Jesus, não tiraste? Então, tira esse teu rabo anafado do sofá, encolhe essa tua barriga de leite e biscoitos, sacode o pó ao fato vermelho, dá lustro às botas, dá que fazer aos duendes e feno às renas, oleia esse trenó, enche o saco, sai do quentinho desse teu chalé algures na Lapónia, faz-te ao mundo e VÊ LÁ SE NÃO TE ESQUECES DE MIM OUTRA VEZ!

Estamos entendidos, Pai Natal?…

Violeta - Pai Natal.jpeg

Saúde, trabalho, beijos e abraços e uma manhã de Natal de pura felicidade,

Violeta

Roubadores de sonhos

Que fazer, quando se tem uma boa história na gaveta? Enviá-la a uma editora? Cair na lábia da supostamente mais promissora? Que tipo de editora deve abordar? Que tipo de editora procura, afinal? Uma vanity publishing ou uma editora tradicional? Sabia que tal como qualquer outra empresa, também as editoras tradicionais visam o lucro? Quem lhes garante retorno, tratando-se de um autor desconhecido? Será o seu insuficiente currículo factor de exclusão? Investirão elas num autor sem… nome e sem rosto? Como se fazer ouvir, quando nem ouvidos lhe dão? Quantos manuscritos lhes cairão na caixa do correio todos os dias? Quantos deles serão avaliados e lidos na íntegra? E quantos deles não são enviados diretamente para spam? Que fazer? Insistir? Desistir? Desanimar, por terem desvalorizado o que tanto valoriza e prazer lhe deu?

Não existindo resposta única para questões que considero complexas, resta-me partilhar a minha experiência. Se com ela conseguir esclarecer ou ajudar alguém, já vale a pena.

Consciente de que tinha em mãos uma boa obra, manuscrito inédito, deixei-me levar por uma vaga de excesso de confiança e comecei a pesquisar editoras. No dia seguinte já seguia várias nas redes socias. Para além dos três grandes grupos, Leya, Porto Editora e 20/20 Editora, não houve uma que me tivesse escapado ao crivo. Todas tinham milhares de seguidores, mas só uma chegava à ordem dos milhões. Crédula e impulsiva como sempre fui, contactei a mais promissora – a que mais enchia os olhos, por assim dizer –, apresentando-me e expondo a minha intenção.

E se quando o fiz estava cheia de certezas, bastou enviar o e-mail para me encher de dúvidas. Enfim, preparada para um sem número de exigências e entraves, inclusive uma não-resposta, eis a resposta que é imediata.

Quando ao longo da vida escalas montanhas para atingir metas e objectivos e de repente te aparece algo… fácil, tu devias, no mínimo, desconfiar. Mas eu não só não desconfio como envio prólogo e primeiro capítulo para começar. “Para podermos avaliar a obra, terá de a enviar completa”, alegam, e sim, achei que fazia sentido, pelo que lhes envio original completo.

Passado um mês, sensivelmente, recebo e-mail com proposta de edição.

Sem saber se fico contente ou horrorizada, sendo o mais honesta possível e sem me expor demasiado, rejeito. Como podia eu entrar em despesas, sendo o meu salário, nessa altura, a soma daquilo que não gastava? Apresento as minhas desculpas, agradeço e despeço-me com a certeza de que, nas condições expostas, nunca um simples conto meu viria a ser publicado.

Um pouco desiludida e já com os pés assentes na Terra, remeto-me à minha insignificância, retomando rotina anterior, cujo lar e família composta por três são a minha prioridade. Mas isso pensava eu! E a verdade é que bastaram dois dias para receber uma segunda proposta.

E pronto, foi nessa altura que falei com o meu marido. “Em paralelo com os meus afazeres, tenho andado a escrever umas coisas no meu computador”, disse-lhe, ao que ele permanece calado, que é como quem diz: explica lá isso melhor.

O explica lá isso melhor resumiu-se a um romance completo, deixando eu de lado aquele outro em fase adiantada, os contos e os poemas que vão surgindo de forma espontânea.

Em suma, pecados confessados, acabo mesmo por aceitar essa segunda proposta.

Tanto da vida como das pessoas, as bordoadas, ensinam-nos a ser mais cautelosos. Mas quando somos pessoas sem manha, humildes e honestas, há sempre quem se queira dar bem às nossas custas. E o pior, é que nos deixámos levar! (riso).

Quanto à suposta editora, tudo era promissor, dourado e entusiasmo em forma de pontos de exclamação.

Quanto a mim, tudo me caiu ao chão, quando recebo exemplares em casa.

Com uma boa revisão, o meu original tinha tudo para ser uma obra de referência. Bem desenvolvida, não menos bem estruturada e repleta de verdades inconvenientes, não só é uma excelente história como é intemporal.

Mas ninguém tinha apostado em mim, porque eles não eram uma editora!

Chegar a uma editora a sério, não é tão fácil e nem para todos, percebi.

A minha era uma publicação de autor, ou não fora tudo impresso da forma como lhes tinha enviado. Como acusá-los e culpá-los quando a culpa fora inteiramente minha? Eu é que havia errado ao fazer mal o trabalho de casa! Eu é que me havia iludido e deixado levar por pontos de exclamação ao desbarato! Fui eu quem aceitou e assumiu despesa que não devia! Que nem podia, mas paguei até ao último cêntimo.

Pessoas que possam passar por cá, digo-vos, anda meio mundo a roubar outro meio e alguém a enriquecer à custa dos sonhos de pessoas bem-intencionadas e sonhadoras! Não se deixem levar por milhões de seguidores ou promessas demasiado ambiciosas, por favor.

E não, não procuro fama e muito menos fortuna, apenas reconhecimento caso tenha algum valor.

Continuo a escrever e se o faço é para manter activa a minha mente; para aprender com as situações, enredos e personagens que vou criando; para testar limites da minha criatividade, trazendo ao de cima anjos e demónios, bulindo em verdades inconvenientes, fantasiando um pouco e ousando também. Faço-o por puro prazer pessoal. E o que vier por fora, isto se vier, será lucro. Mas não que eu procure. Desisti, porque não quero que me voltem a roubar sonhos, porque me recuso a pagar para sonhar.

Criei este blog para partilhar um pouco do que tem sido o meu percurso até aqui. Nada fácil, por sinal. Mas quando penso nos milhões cujas experiências são tão piores e nem se queixam por desconhecer realidade diferente, aí, vejo o quão abençoada sou. Há sempre alguém pior do que nós, facto.

De volta ao livro e à minha experiência pessoal. Ninguém se consegue corrigir a si próprio, não se iluda. Um bom revisor é elemento imprescindível e essencial na redação de uma editora. Quando alguma entrega revisão à responsabilidade do autor, não será editora seguramente.

Mas tudo depende da intenção e onde o autor pretende chegar. Que a obra fique para memória futura, entre familiares e amigos, ou se torne pública, é aí que reside a diferença. Se for pessoal, existem formas mais acessíveis. Se a intenção for mais ambiciosa, será bem mais difícil de alcançar (isto para não dizer impossível).

Logo na apresentação do meu livro, assumi imprecisões e erros do qual ainda hoje não me perdoo. Aprendi a lição. E sim, apesar de tudo, a experiência revelou-se positiva na medida em que trouxe ao de cima verdadeira índole de pessoas pelas quais poria a mão no fogo.

Quem gosta de ti e te admira, irá apoiar-te, destacar a tua coragem e a tua capacidade criativa. Quem não gosta ou te inveja, aponta única e exclusivamente o lado menos bom que poderá ser a tua ousadia como ordinarice, o lado fantasioso como uma espécie de demência, e o realismo da tua narrativa como parte distorcida da vida de alguém, incluindo da deles.

Nem sei que dizer.

Bem, quem nos surpreende pela negativa são quem mais gostámos e quem nos tira o chapéu é quem menos esperávamos.

Agora quando penso nisso, só me apetece rir. Mas na altura doeu. O meu romance mexe com temas como a violência doméstica, abuso, homofobia, pedofilia… nada leve, porém, com um realismo que houve quem acreditasse tratar-se da vida real, da minha vida. Não! O mais aproximado que escrevo acerca da minha vida, está aqui neste blog. E se as minhas histórias soam realidade, é porque visualizo e sinto aquilo que escrevo. “Andaste a vasculhar a minha vida para ganhar dinheiro às minhas custas!”, acusaram. Nossa Senhora de Fátima o que eu tive de aturar, quando tudo o que pretendia era que se orgulhassem de mim.

A realidade bateu-me como um violento murro no estômago. Caí e esborrachei-me ao comprido. Paguei pelo meu erro. Depois, permaneci quieta e calada até vencer contrato.

Continuo a escrever, continuo a dar vida a personagens e a sonhar. As histórias/estórias que escrevo, essas, irão permanecer incógnitas no disco rígido do meu computador.

Porque Autor é aquele que inventa de raiz; que usa capacidade e meios próprios para criar, produzir ou escrever uma obra, o livro, por não ser inédito e por ter expirado contrato, encontra-se agora disponível no Kindle.

Terminada experiência, com tudo de bom e ruim que esta me trouxe, uma certeza permanece: de autêntico, sólido e maravilhoso, tenho os meus sonhos e a minha família composta por três…,

Voleta

Quis o destino que fôssemos três

Poderíamos ser apenas dois; poderíamos ser quatro ou até mesmo cinco, mas quis o destino que fôssemos três. Somos um triângulo equilátero congruente, não será disparate expô-lo desta forma.

Traçar o perfil do pai seria o mesmo que enumerar valores que uma pessoa de bem deve defender e possuir. Pois, mas não terá ele defeitos?, perguntar-me-ão. Sem dúvida! Como qualquer ser humano está carregado deles. Mas quando é o prato das qualidades que mais pesa na balança, há que lhes atribuir inferior importância, encará-los e suportá-los com a naturalidade de um mal menor.

Quem segue este meu blog desde o início – se é que existe alma curiosa e corajosa o suficiente –, saberá que o meu filho não foi um bebé fácil. Absolutamente encantador e muito desejado, ninguém seria capaz de o apelidar de… instrumento de tortura. Suportei, aguentei e embalei o meu menino noite após noite. Tornou-se um bom miúdo, ele, essa minha obra-prima. Enfim, parafraseando Shakespeare “tudo está bem quando termina bem”.

Para o meu filho tenho reservado um outro capítulo. E para o pai também. De mim, a mãe, por mais que conte nunca tudo será revelado. Voltasse eu ao início e muitas vírgulas, pontos, parágrafos e capítulos seriam acrescentados a este blog onde me expresso e me confesso. Passem-me com um camião por cima e eu posso nem reagir, apenas chorar por dentro. Mas sequer se atrevam a passar de raspão com uma trotineta que seja em qualquer um dos dois, ou terão de se haver comigo. São a minha vida e o meu porto seguro. Ambos continuam a acreditar em mim, mesmo depois de os ter desiludido. Mas tudo me fugiu do controle e o que deveria ter sido um grande feito, acaba por se revelar o pior de todos os meus falhanços. Poder-me-iam ter apontado o dedo, mas permanecer a meu lado, acreditar em mim e apoiar-me até ao último segundo, foi decisão do qual muito me orgulho.

Tendo eu lido a maior parte dos livros mais do que uma vez, a estante acabou por perder aquele encanto. Numa altura em que o meu salário era a soma daquilo que eu não gastava, comprar novos livros estava fora do orçamento. À semelhança do meu creme e perfume preferidos da Perfumes & Companhia, a compra de livros passou para a classe do luxo a que eu não me podia dar ao luxo. Foi para preencher essa falha, e em busca de algo que me realizasse a mim, que comecei a escrever.

As primeiras quarenta páginas funcionaram como uma espécie de catarse. De forma obsessiva, fui despejando nelas o negrume da minha vida; fui chafurdando na lama ao limite da dor física até me cansar. Depois parei. O exercício afectara-me da pior forma possível. E eu não podia nem queria regredir. Se eu tinha tanto de bom, que tinha, por que motivo me terei deixado arrastar pelo pior? Não sei, mas sei que feita a prova dos nove valeu a pena, porque funcionou como uma espécie de bofetada que me acorda para a realidade. Foi nessa altura que saí, que me atrevi a enfrentar a vida fora de casa e as pessoas, dando início ao curso de técnica de Marketing. Não o escolhendo foi ele que me escolheu a mim, na medida em que era o único disponível.

Terminado curso, esse primeiro grande teste, dou comigo a abrir o documento Word.  A Sombra, era o título. E eu era essa sombra; uma sombra que se colava a mim tanto quanto a repelia. Passado esse tempo, e a essa distância, não me revi nas densas e pesadas páginas. Apesar de ser eu, eu não queria ser aquilo, pelo que seleciono o conteúdo do documento e apago-o sem hesitar.

Bastou um único clique, para ficar com um cursor a piscar no topo esquerdo de uma única página em branco.

Fecho os olhos e respiro fundo como se o gesto me tivesse aliviado da mais pesada carga. Todavia, à sensação de alívio, segue-se a de um vazio impossível descrever.

Por instantes, fico à deriva. Eu sem saber o que se estava a passar. E o cursor ali a piscar, a espicaçar-me os nervos, a rir-se de mim, a desafiar-me... Até que o outro eu, a menina insegura de outrora, vem ao de cima. Depois penso nas histórias em que me incluía; nas personagens e enredos que infantilmente desenvolvia e sorri.

Eu podia fazer a magia acontecer, tomei consciência.

Eu podia ir até onde a minha imaginação me conseguisse levar, e até podia entrar na pele de outra pessoa. Aí, recordo pontas soltas de histórias que em tempos idos fui deixando a meio. Recolho pedaços dessa manta cujos retalhos havia cosido antes de o sono me pegar. Lembro o meu jeito peculiar e simples de conjugar sujeito, verbos e predicados.

E lá estava eu a imaginar coisas.

E pronto, foi assim que o cursor me conquistou e comecei a escrever sem temer represálias da professora.

Escrever tornou-se o meu escape. No fundo, permitia-me sonhar acordada. Ninguém tinha conhecimento dessa minha… panca, por assim dizer. Não interferindo com os meus afazeres, mantivera-se segredo meu até ao dia em que terminei de ler um livro oferecido por uma sobrinha. A minha história dava-lhe dez a zero, pensei. Atrevimento e presunção minha, ainda tentei convencer-me, pelo que, na dúvida, abri o documento. Por ter desenvolvido a história havia um bom tempo, enquanto a ia lendo ia-a aperfeiçoando, refazendo e limando arestas pelo caminho.

Quando terminei as cerca de trezentas páginas em formato Word, fiz uma espécie de balanço. A história tinha um início duro, mas era apaixonante e mais prendia à medida que se ia desenrolando. Uma excelente história! Com tanto de bom e apaixonante como de mau e chocante, expunha o melhor e o pior das pessoas enquanto seres humanos.

E como a vida e as pessoas têm tanto de bom como têm de ruim, às vezes ficámos chocados e noutras encantados...

Violeta - destino.png

Quando se perde o principal elo de ligação entre irmãos - 2

Ao tentarem remover-lhe o tumor, os pulmões deixavam de ventilar. Tendo em conta a idade avançada, não mexer foi a decisão. A mais acertada, segundo o médico. “É preferível a ficar ligada e dependente de uma máquina para respirar”, justificou ele. “E agora, o que vai acontecer daqui para a frente?”, perguntei-lhe eu.

Quando a mãe passou para o recobro, fui vê-la. Estava descorada, sonolenta e um pouco confusa ainda. Observei-a, segurei-lhe a mão e pouco mais. Havia trabalhado tanto aquela Mulher; havia criado e se sacrificado em prol de um batalhão de filhos e agora estava ali, tão frágil, tão só e tão indefesa. À mercê de mais uma rasteira da vida, tinha no corpo uma bomba relógio em contagem decrescente. Merecia um final menos agressivo, ou pelo menos mais tranquilo, fui pensando.

O mecanismo registava-lhe frequência cardíaca, enquanto o pessoal de serviço se ia movendo em silêncio. Era como se cada canto daquela sala escondesse um segredo, acoitasse uma alma leve e já livre da doença.

Silêncio compadecido e introspectivo, esse que registei.

Resquícios da anestesia, talvez, a mãe esboçou um sorriso com tanto de fugidio como de inocente. Vi naquele seu gesto involuntário inocência minha de quando menina. Ali, e pela primeira vez, o conceito de os velhos voltarem a ser crianças, começou a fazer sentido para mim.

Não é fácil reunir irmãos sendo eles tantos com vidas tão distintas, profissões e compromissos tão dispersos. Mas enfim, à excepção de uma residente no estrangeiro, lá nos reunimos. Feito ponto da situação – estado de saúde da mãe, alta hospitalar eminente e o ela não poder ficar entregue a si própria em sua casa –, instala-se a discussão. Sendo ela mãe de todos, todos puxavam para trás. Nem responsabilidades e é que nem encargos financeiros! Uns retraíam-se, outros mexiam-se de modo desconfortável e outros era como nada tivessem a ver com o assunto. É feio dizê-lo desta forma, mas não encontrei outra para descrever situação e cenário tão constrangedor.

E não, não pretendo justificar-me quando não tenho justificação. Eu também falhei como filha. Mas não podia nem queria assumir por inteiro uma responsabilidade naturalmente de todos. À excepção de um irmão, que tinha uma vaga ideia, nenhum dos outros tinha conhecimento das bordoadas que a vida e as pessoas me haviam dado. Nenhum deles sabia do porquê de me ter despedido, do assédio, daquela espécie de loucura pela falta de sono, da fobia, de um tratamento há pouco terminado; e até do filho que havia perdido há anos conheciam pormenores, quanto mais dos anos que vivi em bloqueio e posterior aborto. Manias, suponho que pensassem. Dificuldades financeiras? Não, que ideia! Afinal tinha o meu filho inscrito num colégio particular. E eu… a mim nada afetava. Eu era dura e má como as cobras! Mas era a única que conhecia o real estado de uma mãe que era de todos, que a havia acompanhado durante meses, que permanecera o dia inteiro no corredor do IPO e lhe dera a mão na sala de recobro. Ela tanto poderia durar dias como semanas. Mas com afecto e os devidos cuidados, esses dias ou semanas poder-se-iam estender por meses ou anos com razoável qualidade de vida, porque se o cancro cavalga em corpo jovem, marcha lento em corpo velho.

Adiante.

Todos tinham a sua própria família, os seus próprios trabalhos, vidas e contratempos; todos se defenderiam com justificações válidas, feitas as contas. Soluções dignas, rápidas e viáveis é que ninguém apresentou, até uma irmã resolver transformar o problema numa espécie de negócio. É feio para mim expô-lo nestes termos, afinal foi a única a apresentar solução com a urgência que o caso exigia. Mas quando se propõe isto em troca daquilo, é o termo negócio que me ocorre.

A casa da minha mãe não tinha qualquer valor afectivo para mim. Sempre que sonhava com a casa dos pais, era a da infância que o meu subconsciente ia buscar. Aquela fora comprada numa fase tardia, depois do meu pai ceder ao não-compro-uma-casa-porque-não-posso-comprar-doze (equivalente a uma casa para cada filho). Bem, uma das filhas fez preço à casa – que só era uma e não doze como o pai gostaria que fossem –, subtraindo-lhe parcela de ficar com a mãe ao seu encargo. E pronto, fez-se negócio. A partir do instante em que todos concordaram e assinaram escritura em notário, a casa passou a ser propriedade dela, tal como toda e qualquer responsabilidade pela nossa mãe.

Entre fases melhores e outras menos boas, houve um internamento. “Se algum irmão teu quiser subir nem pode!”, observou, numa das muitas visitas que lhe fui fazendo. Soou brusca a observação, mas não fiz caso. “Há mais um cartão na recepção. E se chegar mais alguém eu saio. Não se preocupe”, sosseguei-a. Ela olhou para mim, permaneceu séria por instantes e depois disse: “Tu és a filha mais querida que eu tenho”. Petrifiquei. Se por ventura existisse alguma mágoa, que não existia, naquele instante ficou tudo sanado. Mas depois apontou a porta, eram do demónio, as pessoas supostamente vestidas de branco. Delirava. A dose de morfina já era forte por essa altura, pelo que delírios eram tão frequentes como frequente era fazer do passado mais antigo as memórias mais recentes.

Talvez delirasse quando disse ser eu a filha mais querida que tinha, não sei…, mas prefiro guardar o que ouvi como um breve instante de lucidez.

A minha mãe era muito apegada à vida, talvez por isso se tenha superado, tenha ultrapassado previsão de tempo. A irmã que chamou a si tarefa de cuidar dela, começou a dar sinais de desgaste. Toda a sua família dava sinais de desgaste, na verdade, o que tornava ambiente pesado, afastando ou gerando desconforto a qualquer visita. Um dia decidiu reunir família. Tinha um comunicado a fazer. Como vinha a ser hábito, nem todos os irmãos compareceram. Contudo, havia lá uma pessoa, que, sendo da família, não era filha da minha mãe. Mais tarde atribui-lhe o significado de testemunha, uma espécie de muleta para os da casa. “O dinheiro que a mãe tinha na conta agora é meu. A mãe deu-mo!”, anunciou ela. E ali, logo ali, o comboio descarrilou. Era demasiado óbvio, a mãe não lhe dera coisa alguma, porque a mãe há muito fazia doses elevadas de morfina.

De todos os irmão, a primeira a descarrilar, levou um aperto meu. “Mais depressa te dava uma estalada na cara, do que descia ao teu nível”, disse-lhe, deixando-me levar por um impulso do qual me arrependi logo. Mas havia na sala uma testemunha, a tal muleta, que nos olhava, que ouvia e registava cada gesto e cada palavra naquele seu megafone em pulgas para espalhar aos sete ventos. Nós, interlocutores, só tínhamos de manter a calma, nada mais. Só que calma é palavra riscada no dicionário dela, dessa irmã a quem tanto devo e de quem tanto gosto. Ela não só é uma das irmãs mais bonitas como também das mais inteligentes, mas, e como há sempre um mas, tem a capacidade de fazer a tempestade num copo de água; quando tudo o que é preciso é saber ouvir, assimilar e reflectir antes de reagir, ela explode sem se preocupar com estilhaços. O melhor amigo dela hoje será seguramente o pior inimigo de amanhã. Talvez por ser tão intempestiva, imprevisível e instável, permanece só.

Gosto das pessoas como são, a vida assim mo ensinou, só que existem algumas que me desconcertam ao ponto de não saber como reagir, o que dizer ou fazer, quando nos cruzámos. Odeio ser assim, mas é por gostar tanto de algumas que as evito.

Passado pouco tempo a mãe morreu.

Se todas as mortes são tristes e perdas dolorosas, a morte da minha mãe teve uma parcela bem maior de alívio do que de dor. Não merecia ter sofrido tanto, ninguém deveria sofrer tanto.

Quando os filhos perdem os pais, perdem o principal elo de ligação entre si; aquele ponto de encontro deixa de existir, dispersam-se e dispensam-se como de estranhos se tratasse.

Famílias, pensem! Se o que vos liga é o sangue o que vos une são os afectos. Alimentem os vossos afectos, reaproximem-se, refaçam-nos, mas não os percam como eu vejo os nossos perdidos. Eu amo-te mãe. E eu não sou má…

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És mulher vida. Vida futura e vida passada. És mulher tudo. E recusa ser nada..., Violeta

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