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Projecto Violeta

Blog biográfico. A vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Projecto Violeta

Blog biográfico. A vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Excluir-se dói menos do que sentir-se excluído

- O que levais no regaço, senhora? – pergunta-me.

- Energia, maturidade, disponibilidade, muita vontade, sentido de responsabilidade e outras competências que noutra idade desconhecia, senhor – respondo, honesta e fiel aos meus princípios.

- Mas és especialista em quê?

- Considero-me apta para a vaga em questão, tenho a capacidade de me adaptar facilmente e o empenho é uma das características de que mais me orgulho – respondo.

O sujeito permanece mudo, logo, prossigo.

– Se não sei, foco-me e aprendo rápido. Independente do que fizer, será bem feito – garanto.

Desconfiado, franze o sobrolho e olha-me como se tivesse diante de si uma estranha ave jurássica.

- Como diz o poeta, coloco o máximo no mínimo que faço – ainda tento justificar. Mas cada cavadela cada minhoca, percebo.

- Bem – tossica. – Na carta diz: – coloca os óculos e afasta um pouco o documento – Técnico das ciências da vida – lê, dando ênfase à designação. – Mas isto é uma treta, deixa-me que te diga! – afirma, picando a frase escrita com o indicador. – Já fiz uma reclamação!

Como assim?, diz-lhe a minha expressão sem jeito por mim. Apesar de ter prometido a mim própria não regressar à função de outrora, eis que recuo, porque se a idade não me permite apuros com a pandemia tudo piorou. E se os jovens sem experiência se fazem valer das licenciaturas, porque é assim que tem de ser, eu sem licenciatura, a par de outras competências que se vão adquirindo com a idade, faço-me valer da experiência.

- Leem isto e depois pensam que veem para aqui fazer nada! – insinua, o tom é de censura. – Aqui não há lugar para… técnicos – pousa o documento na mesa. – É que só me fazem perder tempo!

- Técnico das ciências da vida, quer dizer: lugar cuja função não é aprendida na escola – explico, com todo o respeito. – Foi isso que percebi. Um ofício aprendido na prática, sabe, no dia-a-dia, fazendo frente às necessidades do serviço e adversidades inerentes – explico ao que ele logo se inclina para trás na cadeira, avaliando-me meio que na dúvida meio que na defensiva.

Eu mantive-me tranquila. Estava segura acerca daquilo que tinha acabado de dizer e mais ainda acerca da vaga que me tinha levado até lá. Na verdade, sabia ao que ia; sabia, inclusive, que o ordenado era inferior ao que já havia ganho. 

Passados segundos, cujo desconforto se torna palpável no interior da sala, o senhor fulano de tal resolve mudar de assunto. Na verdade, passámos do irrelevante ao importante: aos meus conhecimentos relativos ao laboratório em questão. Nessa altura, falo como peixe dentro de água: invisto nos pontos essenciais e resumo os assessórios, salientando os meus pontos fortes e revelando eventuais fraquezas inerentes ao facto de estar fora do ativo há algum tempo.

- Vejo que percebes muito disto! – disse. Mesmo assim, não estou interessado num perfil como o teu, subentendi.

- Obrigada por me ter recebido – despeço-me, sem apertos de mão, como convém. – Espero que encontre em breve a pessoa que procura – digo, antes de transpor a porta e com isso excluo-me, porque excluir-se dói menos do que sentir-se excluído.

Chego a casa e faço contas à vida: um romance pronto na gaveta, outro em repouso à espera de ser lapidado e uma nova história a sondar-me. Romance especulativo, penso, como será o mundo e o relacionamento humano daqui a 200 ou 300 anos? Talvez eu saiba, vou lá espreitar...

Procura-me

Deixe-se embalar pela poesia

Procura-me onde não estou

Na voz que se calou

Numa floresta densa

Imensa

No profundo oceano gelado

Procura-me no céu estrelado

Procura!

Procura-me nos teus sonhos

Nos pesadelos medonhos

Procura-me na noite cerrada

Na tua cama gelada

Fria

No romper da alvorada

No fundo da tigela vazia

Sim, procura

Procura-me lá

Procura-me na tua saudade

Triste realidade

Procura o que te fascina

Aquele jeito de menina

A doçura do meu mel

O amargo do teu fel

Sim, procura!

Procura-me na sombra

Onde quer que me esconda

Nas tuas fantasias

Na infinidade dos teus dias

Sei lá, mas procura

Procura-me desfocada

Numa batalha sangrenta

Na paz dissimulada

Violenta

Porra, procura-me!

Procura-me, não desistas

Procura-me nas listas

Procura o que não sou

Estarei onde não vou

Procura-me nos teus olhos

Nos filmes que eu não vi

Nos trilhos desta vida

Procura-me por aí…,

Violeta

Passos.jpg

Bendita a maldita pandemia!

Grandiosos, eram os meus pensamentos no final de 2019. Via diante de mim uma imensidão de possibilidades. Entro no novo ano com uma garra superior e aquela vontade de fazer acontecer.

Todavia, chega 2020, rapidamente passa o mês de janeiro e eu cada vez mais na mesma. E se não me sentia diferente, era porque nada havia mudado. A rotina e a mesmice de sempre estava para mim como a forca para um condenado à morte. Sufocava, ia-me sufocando a modinho.

Necessitava de algo maior do que eu; do que céu que me abrigava e do que a terra que me suportava. Queria alcançar a graça e a capacidade de sonhar acordada, recuperar esse sonho de outrora. Queria voar nas asas de uma esperança que sabia perdida.

Mas por que motivo quereria eu tanto se, ao que parecia, tudo tinha?

Queria zarpar desse porto de águas turvas, torpes e pardacentas. Queria vaguear numa página sem linhas, sem convenções da escrita criativa, sem pudores, sem erros e sem esses tantos medonhos medos. Queria descolar, desenhar arabescos em livre voo, poisando aqui e acolá com a elegância e a liberdade de uma transparente libelinha em águas cristalinas.

Depois chega fevereiro, a seguir o março e com ele a Covid-19, doença que paralisa o comum mortal e agita políticos, apanhando desprevenida a comunidade científica.

Confinados, refletimos sobre a insignificância das coisas e sobre a pequenez do ser humano – personagem sem guião neste planeta que é um palco sem chão.

Quantas vezes quisemos tão mais, desvalorizando o tanto que tínhamos?

E eu tinha, e tenho, bem mais do que a maioria alguma vez sonhou, agora sei-o! Por isso, e só por isso, que seja bendita a maldita pandemia!

Entretanto, e como ainda sei aonde quero chegar, eis-me por cá; eis-me solitária nesta que é uma peregrinação conjunta…,

Violeta

Violeta - flor.jpg

Figueira, Figueira da Foz…

Contado ninguém acredita!

Porque de bordoadas já basta as que a vida e a natureza nos vai pregando, quando o dia não corre de feição, bora lá converter contratempos, ou aquela arrelia, numa aventura para contar e não num drama para ter do que queixar.

Uns bons anos antes da pandemia, num belo dia, resolvemos visitar a região Oeste.

Pela autoestrada, da cidade berço até Peniche, foi de uma assentada.

Mas como o regresso se pretendia com tempo, fomos pernoitando aqui e ali no sentido ascendente, apreciando as vistas, a gastronomia e o melhor de cada local.

E assim fomos deixando para trás Peniche, Óbidos, Foz do Arelho, São Martinho do Porto e Nazaré até chegarmos à Figueira da Foz. Queríamos mesmo passar alguns dias por lá.

Uma vez na Figueira, estacionámos e partimos à cata de lugar onde ficar. E é aqui que o caricato acontece. Com os hotéis lotados e residências particulares com vagas à discrição, aceita-se convite de um modesto cartão.

Meio escondido, este, permanecia encostado na vidraça no lado de dentro de uma restaurada janela voltada para o passeio. “DORMIDAS”, lia-se a custo, conjunto de letras mal desenhadas de uma caligrafia primária.

Ao contrário da janela, fechada e recém-pintada de branco, o portão, emperrado e carcomido pela ferrugem, estando aberto, convidava a entrar.

Uma vez no pátio, tentava-se perceber onde seria a porta principal, ou se haviam dado pela nossa chegada, quando no topo da escadaria surge uma alegre e animada pessoa.

Típica e maravilhosa, para além de descalça sobre o escaldante chão de tijoleira barata, a senhora exibia rasgado sorriso isento de dentadura, roupa de andar por casa sob um avantajado avenal e farripas da farta cabeleira a fugiam-lhe do lenço suspenso no topo da cabeça.

Claramente de bem com o mundo, consigo e com a vida, contrastava com o desânimo das plantas que, nos diversos e dispersos vasos, tombavam de sequidão.

Dito ao que íamos, a senhora, proprietária lá do lugar, logo mostra um dos seus melhores quartos.

E pronto, em menos de meia hora já seguíamos mais para interior no sentido de Coimbra, esquecendo Figueira, ou deixando-a para uma outra oportunidade.

No interior do carro seguia eu decidida, o filho animado com a há muito prometida visita ao Portugal dos Pequenitos e o marido atónito sem perceber patavina. Por ele, tinha-se ficado na Figueira, no quarto limpo e arejado com casa de banho própria, que a tão simpática senhora havia mostrado e eu, sem que percebesse porquê, recusado. Saí de lá como o Diabo foge da cruz, palavras dele.

Mais tarde, já instalados no hotel Ibis em Coimbra, conversámos sobre a tão inesperada e repentina fuga.

A senhora na Figueira havia-se queixado da falta que os dentes postiços lhe fazia, até aí ele tinha atingido. Mas passou-lhe ao lado o facto desta ir deitando os olhos por onde íamos passando. A esperança de os encontrar, levou-a a passar a pente fino a superfície dos móveis e até a dobra do lençol da cama que nos mostrou. E tinha passado o dia nisso, palavras da própria. «E mesmo assim querias o quarto?! Querias abrir a cama e dar com a dentadura postiça de alguém, marido, é mesmo isso que querias?».

Uma noite em Coimbra e depois regressámos à costa. Aveiro, foi a paragem seguinte.

Enfim, o bom no meio disto tudo é que há sempre um hotel Ibis por perto,

Violeta

Violeta - Figueira da Foz.png

Pecados de uma criança desrespeitada

Acto de contrição, primeiro

Este é um daqueles grandes pecados que levava a mãe de Violeta a dizer, repetida e continuadas vezes, “É má como as cobras, o raio da rapariga!”.

A situar, a cena acontece na costa norte do país, e mais concretamente na praia onde a família passava alguns dias todos os verões.

As regras eram simples: enquanto a pessoa adulta apanhava o seu banho de sol e ia passando pelas brasas, as meninas tinham a obrigação de permanecerem em modo dormente, que é como quem diz: quietas e caladas sem arredarem pé.

Sendo as crianças de natureza irrequieta, brincalhona e barulhenta, escusado será dizer o quão desmedido é tal sacrifício.

Violeta não se lembra do comportamento da irmã, mas lembra-se da sua própria revolta, à parte do rótulo de criança amuada e desagradável do qual já não se podia livrar. Mas a verdade é que nesse dia ela estava particularmente mal-humorada, mas tão de mal com tudo e mais um par de botas, que sequer se atrevia a olhar para a toalha onde refastelada se encontrava a tia de ambas e sua madrinha de baptismo.

Esta, quando lhe desse na gana, iria levantar-se e levar as meninas ao banho. Violeta conhecia-lhe os passos de cor. Ela odiava ser afundava na rebentação das ondas. O apanhá-la pela nuca com uma mão, tapar-lhe o nariz com a outra e acachafundá-la até se lhe encherem os ouvidos de água e lhe faltar o ar, ia correr mal nesse dia. Era visível aquele seu mudo sentimento de fúria. Estava prestes a rebentar. Mas o porquê só ela sabia.

E pronto, quando chegaram a casa a reação da mãe disse o resto: “Cruzes, cunhada, parece que andou à bulha com os gatos!”.

“Não me doeu!”, atirou Violeta após aplicado castigo. O queixo tremia-lhe como se tivesse vida própria e os seus olhos estavam tão cheios de lágrimas que lhe ofuscava a visão. Mas chorar, só chorou depois de se ter encafuado algures bem longe da vista alheia.

Segundo a madrinha, arrependida de ter gasto um ror de dinheiro com a afilhada, ela era uma criança má e mal-agradecida. Preferia ter sido madrinha da outra.

Habituada a ser posta de parte, Violeta nunca fora interesseira. Prometessem-lhe algo em troca do que fosse que rejeitava pela certa. Mas nesse dia não tivera escolha. Decidida que estava a comprar-lhe um par de brincos, a madrinha leva-a a cortar o cabelo. As duas pequenas esferas de ouro amarelo teriam de ficar bem à vista nas orelhas da afilhada.

Violeta era menina e gostava de o ser. Com ou sem piolhos, gostava do cabelo a emoldurar-lhe o rosto. A madrinha não só não tem essa sensibilidade, como opta por um barbeiro ao invés de uma cabeleireira. O corte à rapaz, o contorno das orelhas e o pescoço raspado com o fio de uma navalha própria para a barba, fê-la sentir-se desrespeitada, humilhada e tão poucochinho que quando reage é da pior forma.

Se pelo menos alguém tivesse apurado os porquês, talvez não tivesse reagido da mesma forma noutras ocasiões e talvez hoje não se sentisse tão culpada…

Violeta – Parte daquilo que a define

Episódio 3º. (revisto)

Relativamente a Violeta, o desânimo e a descrença em si própria foi-lhe acompanhando o crescimento. À cata de destaque e lugar no seio familiar, entrou na adolescência e abraçou a juventude sem abandonar a criança de outrora. Feia, burra, moncosa, piolhenta, pestilenta e mijona, eram adjectivos inerentes à sua existência, era como se lhos tivessem tatuado na essência.

A começar em casa, a dificuldade em entender as pessoas e se integrar no seio da sociedade parecia-lhe um problema sem solução à vista. Ninguém facilita a vida a ninguém, percebera-o desde cedo, pelo que auxiliar e acrescentar ao invés de subestimar, humilhar e subtrair a quem como nós merece respeito, passou a ser o seu mantra e parte daquilo que a define nos dias de hoje.

Com a adolescência surge a enorme necessidade em se afirmar. Se por casa sentia necessário e urgente que acreditassem em si e gostassem de si, fora de portas, a medo, foi ganhando algum destaque, pondo a descoberto aquele potencial que teimava esconder-se na sombra da criança insegura. Mas sendo os alicerces frágeis, dificilmente a construção teria a segurança e firmeza necessárias. Violeta, ainda que de forma inconsciente, sabia-o. E ela era, no fundo, uma espécie de crisálida em processo de metamorfose.

A paulatina e frágil transformação teve o início aquando da mudança de escola. Nessa altura, a dantesca e intimidante imagem da antiga professora fora substituída por um heterogéneo grupo de professores. Sem entusiasmo ou qualquer tipo de ruído, dissipada essa nuvem negra, Violeta surge como um tímido rasgo de sol após longo e duro inverno.

Dando largas à imaginação, em casa, começa a tirar proveito do seu sentido criativo para agradar e entreter. Entre tarefas caseiras e recados, fazia de tudo para amealhar trocos na base dos tostões. Semanas antes daquele dia específico, que só ela sabia, iniciava a soma para comprar balões e ou o iogurte para fazer aquele bolo de que todos gostavam, pondo termo ao Natal sem coloridos balões de ar a caírem do sótão e aos aniversários sem bolo para soprar as velas, apenas o seu. O quem, quando e com que recursos, simplesmente passava ao lado de quem usufruía. Sequer chegou a ser questão, na verdade. Sub-repticiamente, Violeta percebera-o bastante mais tarde, tentava comprar o amor deles como se atenção e amor se pudessem comprar. Em suma, a alegria de todos e os bons momentos que lhes proporcionou foi a recompensa, a melhor de todas as recompensas, hoje não tem dúvidas disso.

Entre muitos irmãos ou se faz ruído ou as particularidades, carências, capacidades e méritos, tudo isso e mais uma vírgula, acaba por passar despercebido.

Não pretendendo desvalorizar eventuais queixas e lacunas por preencher de cada elemento dessa sua numerosa família de berço, aqui, apenas expõe a sua verdade, a forma como encarou, viveu, pensou e sentiu cada situação a cada momento. E sendo ela a protagonista, mesmo querendo, não pode omitir e ou excluir da sua história quem por ela passou.

No seu entender, os pais não tiveram tantos filhos por opção. Tendo sido levado à letra o “Amai-vos e multiplicai-vos”, fora feita a vontade de Deus, entende ela ser mais por aí.

Na perspetiva de Violeta, que nasceu e cresceu no seio de uma família numerosa, o menos bom de se ter tantos filhos, é o elevado risco de nunca os pais e os próprios irmãos chegarem a conhecer por completo as particularidades de cada elemento.

E como se tudo isso não bastasse, em anos idos, as meninas pertenciam a uma categoria e os rapazes a outra bem diferente.

Lá por casa as raparigas passavam a vida num esconde-esconde. Eram uma espécie de Cinderela cuja meia-noite acontecia por volta das seis da tarde.

Os rapazes uns privilegiados, julgava Violeta, ou não dormissem elas em casa com trancas à porta e eles na loja com a chave no bolso.

Agora, visto à distância e pensando melhor, o privilégio não fora assim tão maior. Ao dormirem na loja não tinham tempo e horário controlados, era um facto, mas levavam com o reverso da moeda. Para além de partilharem espaço com arcas de madeira onde se guardava o milho já malhado (caixas cujo enxofre para matar o gorgulho Violeta deitava nas arestas a mando do pai), e outras onde se salgava a carne do porco cujo desmanche acontecia depois deste pernoitar com os olhos mortos a vigiar-lhes o sono e as viscosidades a escorrerem para o alguidar, também o partilhavam com pipas e pipas de vinho, estrados repletos de batatas para o ano inteiro e toda uma cacofonia de cheiros e insetos - coisa que na altura não havia perceção.

Tratando-se das férias escolares, Violeta preenchia o tempo entre o campo e a costura.

Se no campo trabalhava como um homem, na costureira manuseava as mãos com a delicadeza necessária para chulear costuras e coser bainhas no mais fino tecido. Ela e outras adolescentes na mesma condição, sempre que podiam, iam à venda, onde tudo se comprava a peso ou avulso, e compravam Kentucky à unidade.

Os pequenos e finos cigarros sem filtro, eram partilhados e fumados às escondidas.

Enfim, entre a descoberta do seu novo eu, o confortável piso do aceitável e o fio da navalha do que lhe era proibido, tal como o seu corpo, a sua maneira de pensar e de interagir com os demais, dentro mas sobretudo fora de portas, fora sofrendo significativas alterações.

Mas como os estudos, efeito imediato, não colocava comida na mesa de ninguém - conceito salazarista -, aos doze anos, sem direito a escolha e logo na altura em que se estava a revelar, foi trabalhar. Rapazes, só por serem rapazes, poderiam fazê-lo e estudar em horário pós-laboral. Mas raparigas, só por serem raparigas, implicasse permanecer fora de portas após hora já referida, nada lhes era permitido. O secundário, por exemplo, Violeta viria a completá-lo só mais tarde, depois de casada.

Algures na fronteira entre a adolescência e a juventude, após algumas e pouco animadoras saídas com outras da sua idade, sem grandes expectativas e elevado grau de desconfiança, Violeta junta-se à irmã e a uma vizinha para saírem aos domingos. Essa vizinha não só era da sua idade como tinha sido sua colega no ciclo preparatório.

Sendo a irmã a mais velha, a mais cobiçada e a mais namoradeira das três, esta, de quando em vez, abandonava o grupo. E assim foi sendo até se cruzarem com um ex-namorado dela, que tinha um amigo ao qual acabou por juntar um terceiro amigo para formar a conta perfeita.

E pronto, se por um lado elas eram três, eles, três acabaram por ser…

Violeta - Adolescência vs Juventude.jpeg

“Amar Demais”…

Respeito, admiração, solidariedade e dor

Entre a consciência e a falta dela, há uma mente que sente e outra que pensa.

“Segue o teu coração”, ora nos diz a mente que sente.

“Avalia os prós e os contras”, ora nos diz a mente que pensa.

Enfim, nem sempre os dois lados se entendem. Por isso, há personalidades cuja razão se sobrepõe à emoção e vice-versa, logo, existem pessoas mais racionais e pessoas mais emocionais.

As mais emocionais, as que colocam o coração à frente da razão, essas, são as pessoas que amam demais.

As pessoas que amam demais são sensíveis, empáticas, carentes e intensas; elas, apesar de serem fonte de inspiração para os pares, vivem no descontentamento e quando se desiludem desiludem-se profundamente, mas só consigo próprias.

As pessoas que amam demais não se limitam a representar um papel, elas encarnam a personagem.

As pessoas que amam demais vivem no fio da navalha; elas empenham-se vezes mil, questionam-se vezes mil, culpabilizam-se vezes mil e são capazes de rir quando no fundo lhes apetece chorar.

As pessoas que amam demais encantam-se pela vida e desencantam-se dela à mesma velocidade.

E como amar demais não é pecado, ninguém deveria morrer por amar demais…

Violeta

Violeta - Pedro Lima.jpg

Divergências entre irmãos

Episódio 2º. (versão revista)

“Se soubesses como és feia quando te ris, nunca mais te rias na vida!”, dissera um irmão a Violeta.

Se muitas das bordoadas esquecera, foi porque nenhuma delas lhe doera tanto como esta frase castradora de alegria e de graça. O sentido, o eco e o peso da frase perseguiram-na durante anos. Durante anos ou evitou ou escondeu, tapando, o riso. Até um simples sorriso se via reprimir. Lamenta que lha tivessem dito, e mais ainda lamenta pelo facto de o emissor ser um dos irmãos que mais admira e gosta.

Violeta passou a infância a sentir-se burra entre os inteligentes, a mais feia entre bonitos e a mais má de todos. Tinha saído ao pai: “Tal e qual, é como quem te desenhou a lápis. És má como as cobras!”, repetira a mãe incontável número de vezes, sob o olhar atento e acusador dos irmãos.

Violeta desconhece as origens do pai. Homem severo, honesto, trabalhador e de uma retidão levada ao extremo, não era por trabalhar a terra que descurava o asseio, o comportamento à mesa, ou a falta de respeito. Avisar até podia avisar uma vez, mas à segunda já se apanhava.

“O estupor da rapariga pega na enxada e tira batatas como um homem!”, dissera ele à mãe, por puro acaso ao passar Violeta ouviu. Gostava dela. Apesar de nunca o ter verbalizado, foi a primeira pessoa de quem teve essa consciência. Talvez a tenha desculpado pelo facto de ter nascido rapariga, quis acreditar.

Empilhar cavacos não era tarefa fácil. Lá por casa fazíam-no no Verão em dose suficiente para alimentar o forno e o fogão durante o Inverno.

A irmã de Violeta, mais velha dois anos, odiava fazê-lo. Odiava qualquer uma das tarefas incumbidas, na verdade. Mas gostar Violeta também não gostava! Nenhuma criança há de adorar ter de passar dias consecutivos em trabalho contínuo e duro, muito duro. As desfolhadas, a apanha das batatas ou lenha da poda, as regas, as colheitas, as vindimas, o arrastar pés descalços sobre eira escaldante, as mondas e tantas outras tarefas ligadas ao campo, preenchiam os dias nas quatro estações do ano. Na sequência, sendo o tempo para brincar uma miragem, lá se devaneava com um simples graveto e se era trazido de volta à realidade e ao trabalho com uma sarrafada. Não, Violeta enquanto criança também não gostava. De todo! Mas não tendo alternativa, conformava-se e deitava mãos ao trabalho.

Um dia, dia puxado em calor e não menos em trabalho, empilhou cavacos sem sequer pestanejar. A olhar para o lado, para quem passara o tempo todo a choramingar, teria feito das dela, como dizia a sua mãe.

À noite, depois do jantar nesse mesmo dia, Violeta recebeu a recompensa: uma pasta inteira de chocolate só para si.

O pai abrira o armário, aquele que mais parecia uma gaiola instalada no topo de um canto na sala, e deu-lha.

Esse era o armário onde o pai acoitava os documentos, os trocos e as lambarices que os familiares traziam de França. Não se podia comer tudo de uma vez, só de vez em quando, quando o Rei fazia anos (talvez já fora do prazo de validade, mas isso nem era tido em conta na altura).

Desta feita, a irmã lá chorou outra vez pela injustiça de uma ter tido chocolate e a outra nada.

Violeta não se recorda ao certo do destino da pasta, mas como é incapaz de ter sem partilhar…

Tratando-se dos três últimos filhos da ninhada, Violeta era a do meio. Com cinco anos de distância, a mais nova de todos, a que viera fora da conta, dizia-se, ou não se encontrasse a mãe em estágio de menopausa, esta, foi crescendo a par com os sobrinhos. Relativamente aos mais velhos, era como se fossem outros pais para si, daí a relação de respeito com um certo distanciamento e embaraço à mistura. Depois havia a irmã logo a seguir. Como já devem ter percebido, Violeta e esta irmã andavam sempre às turras. Mas os irmãos são mesmo assim: passam de o cão e o gato a melhores amigos num instante.

Talvez por ter saído burra, feia e mijona, Violeta nunca chegou a sentir-se a menina da casa e da família.

Uma das irmãs mais velhas, a que vivia e trabalhava em França, regressando apenas nas férias, a dada altura trouxe dois vestidos novos. Violeta ficou em pulgas! Nunca tinha ganho um vestido novo. O verde clarinho seria para a irmã, para lhe realçar a beleza e os lindos olhos da mesma cor. O azul clarinho seria para ela, para dar alguma da luz do qual não tinha sido abençoada.

Como os vestidos eram grandes, Violeta meteu-se debaixo da cama a chorar. Nesse mesmo ano a irmã estreou o que era para si e no ano seguinte estreou o outro.

Por mais que o episódio lhe soe banal ou niquice nos dias que correm, enquanto criança teve um efeito avassalador, uma espécie de tsunami que a fez mergulhar no mais profundo desalento.

E pronto, Violeta amuou outra vez.

Tem vezes que dá por si a dar razão aos irmãos, relativamente ao ser má, feia e amuada, ou não tivesse ela passado grande parte da infância a fazer das dela e a maior parte do tempo envolta por uma tristeza tida e confundida com capricho ou amuo. Não se querendo justificar, mas justificando, a irmã e o seu ar de superioridade tinham a capacidade de despertar em si o seu pior lado. E como era uma espécie de revoltada com temperamento impulsivo…. “És má como as cobras!”, lá repetia a mãe outra vez.

Mas se Violeta nunca reagira de forma gratuita, também nunca alguém se preocupou em perceber o seu lado e apurar os porquês.

Enfim, resulta um sortido rico em temperamentos, tratando-se de uma família numerosa. Entre tantos, há sempre aqueles que são mais ardilosos e egoístas, os mais retraídos e amuados, os privilegiados e os desfavorecidos, os revoltados e os indiferentes, e outros que, vitimizando-se, lá conseguiam dar a volta a seu favor. Mas perfeito, que é como quem diz aquela perfeição de filho!, ninguém atingiu esse patamar, incluindo e sobretudo Violeta.

A verdade é que sempre gostou da irmã e sofria quando, de forma impulsiva, a magoava fisicamente. Por outro lado, a irmã sequer tinha ou tem noção do quanto a depreciou e magoou, engrandecendo-se.

Mas como com o passar do tempo tudo se ajusta e com ele tudo passa, na juventude tornaram-se amigas de sair.

E com a juventude, uma nova fase, outros quinhentos…

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Relativamente ao homicídio de George Floyd

Apesar deste não ser um Blog de opinião, haverá sempre espaço para uma ou outra excepção.

“Nenhum homem é uma ilha isolada: cada homem é uma partícula do continente, uma parte da Terra; se um torrão é arrastado para o mar, a Europa fica diminuída, como se fosse a casa dos teus amigos ou a tua própria; a morte de qualquer homem diminui-me porque faço parte do género humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti”, JOHN DONNE (Cita Ernert Hemingway, no início do livro: Por Quem os Sinos Dobram).

Leia, apreenda e pense.

Enquanto a mente humana distinguir o branco do preto, não deixará de existir racismo. Ninguém precisa ser negro para compreender a realidade das comunidades negras. O ADN distingue as espécies, não cores ou outra coisa qualquer. Pessoas, somos um só género e ponto!

Quando nos identificarmos como um todo, género humano, só aí, a coisa começará a mudar de figura.

Relativamente ao homicídio de George Floyd, há um criminoso que tem de ser exemplarmente punido, e há uma vítima a lamentar. E se a morte de George Floyd diminui o género humano, que diminui, então estamos todos de luto,

Violeta

Afeto, era um prato de comida

Episódio 1º. (versão revista)

Uma menina fungava os moncos, que lhe batiam nos beiços, enquanto os piolhos escuros e roliços caíam sobre o branco da sebenta em sala de aulas.

A estes, que como baratas tontas percorriam a superfície lisa da folha, ela soprava-os como se não fossem seus; como se não se tivessem desovado nos fios do seu cabelo escuro; como se não tivessem nascido, crescido e alimentado em si, reproduzindo outros tantos.

Vergonhoso, inaceitável e condenável nos dias que correm, para dar início ao filme baseado na vida de Violeta, esta foi a cena eleita por si, entre tantas outras possíveis e não menos abjetas.

“Preferia que me desses uma bofetada na cara do que me dizeres que é rapariga!”, dissera o seu pai assim que nascera. Logo aí, no decorrer da infância e por tantas vezes ouvir a frase, de forma inconsciente, Violeta foi-se incluindo no lote dos menos afortunados, uma espécie de maldição que a tem vindo a acompanhar ao longo da vida.

Nessa altura, ter raparigas era sinónimo de responsabilidades, preocupações e cautelas redobradas, porque uma mulher engravida e um homem não e porque mais uma menina era mais uma parcela na soma dos encargos. Enfim, enxoval e despesas de casamento corriam por conta dos pais da noiva, coisa de outros tempos.

Da infância, as memórias não são muitas e nem muito claras. Eram muitos irmãos, são muitos irmãos. Apesar de a contagem ter começado a diminuir, ainda completam uma equipa de futebol de 11.

Violeta foi a penúltima, a décima primeira de uma dúzia e daquilo que a mãe designava como: “sois a cruz que Deus me deu”. Desde cedo ela percebeu ser apenas mais um; desde cedo percebeu que um prato de comida na mesa era a expressão máxima de afeto que lhe podiam dar. E a verdade é que um prato de comida na mesa nunca lhe faltou.

Ela era a mijona (fez chichi na cama até aos nove anos). Não sabe se no seu caso específico existia explicação lógica para a enurese noturna, mas lembra-se da resistência ao sono sempre que se deitava. Dormir significava acordar encharcada, pelo que manter-se acordada seria a solução, entendia, erradamente, percebera-o bastante mais tarde. Mas enquanto criança não tinha essa noção, pelo que, naturalmente, facilmente era vencida por um sono que a inundava até ao pescoço. Depois levantava-se, vestia o que houvesse e assim abalava para escola.

Por se sentir desenquadrada e menosprezada, nunca chegou a gostar da escola. No recreio passava a vida escondida pelos cantos e na sala de aulas nada mais enfadonho: a matemática demasiado fácil e a escrita, leitura, cópias e ditados de textos escritos por outrem, era-lhe difícil de gerir.

Os ditados eram para lá de assustadores (cada erro cada reguada e o medo tanto, que se perdia nas palavras e na leitura difusa e apressada da professora).

Na altura designadas como redações, fascinantes eram as composições. Apanhasse ela vagos nas vindimas, desfolhasse ela espigas de milho, apanhasse lenha da poda, batatas na altura delas, carregasse e sobrepusesse cavacos, catasse ervas entre o cebolo, ou o que fosse pelos campos, a imaginação caminhava em passo de corrida na sua mente em pulgas. Gostava de criar textos, os seus próprios textos, com as personagens e os cenários que a sua imaginação lhe ditava.

Nesses textos que eram seus, atrevia-se a explorar lugares, a ter experiências, a entrar em aventuras, outras realidades e a viver vidas que desconhecia. E isso era fascinante!

Um dia a professora sentou a nádega na beira da sua carteira, depois de pousar a régua para que a visse. “Quem escreveu isto?”, perguntara ela, enorme e velha com o seu melhor ar ameaçador.

Se calhar a professora nem era tão enorme, nem tão velha e nem tão ameaçadora como a memória lho dita, mas tudo lhe parecia enorme, velho e assustador na altura.

“Foi a tua mãe?”, insistira a professora, mas insistira tanto que Violeta acabou por confirmar o que esta impôs que confirmasse.

A mãe sabia ler, e Violeta orgulhava-se disso! Mas letras, apenas desenhava as do seu nome. Todavia, o facto não a ajudou em nada. A professora desferiu-lhe reguada atrás de reguada sem medo que estas lhe partissem os ossos da pequena e trémula mão.

Era, portanto, proibido dar largas à imaginação, apreendeu Violeta e reteve a lição.

Um outro dia, a professora dissera alto e bom som para que toda a sala ouvisse: “Fedes a mijo!”, atirou, sugando o ar pelas narinas com manifesta expressão de repúdio. “Sai-me daqui! Vai embora e lava-te!”, projetara incomodada.

Violeta, envergonhada, levantou-se de cabeça baixa com as lágrimas quase a saltarem-lhe dos olhos e obedeceu. Abandonou a sala com vontade de não mais lá voltar.

Em casa o banho fazia-se numa bacia. Primeiro lavava-se a cabeça, braços e tronco, secava-se e só depois se lavava da cintura para baixo, na mesma água, na mesma bacia. Violeta era criança e sequer se atreve a garantir que lho faziam todos os dias, logo, feder a mijo seria inevitável.

No dia seguinte, os seus pés caminhavam rumo à escola enquanto a mente lhe suplicava que fugisse, que recuasse, que voltasse para trás, mas não para casa.

A aluna humilhada imaginou-se desviar caminho, imaginou-se no centro do milheiral denso e verde cujo odor, misto de terra, adubos naturais e verduras, conhecia de cor. Imaginou-se no interior de um talhão específico, aquele entalado entre um muro galgado de musgo e um riacho de águas límpidas. Imaginou-se fundir e sumir numa das histórias que abundavam na sua mente e ver o tempo passar, os ponteiros do relógio darem infindável número do voltas, noite e dia e um dia atrás do outro.

Mas a realidade era outra. Na boa verdade, se não apanhasse na escola, apanharia em casa. Na catequese também, mas esta parte só de ouvir dizer. “O Monsenhor tem uma palmatória com pregos!”, cochichavam. Mas ela, com ou sem pregos e apesar de lhe ter um medo de morte, nunca vira palmatória alguma.

A infância de Violeta fora pautada pela insegurança, pela humilhação, pela vergonha e pelo medo, principalmente.

Consciente de que sendo eles muitos irmãos e como tal cada um há de ter a sua própria versão da mesma história, sem floreados ou falsas memórias, esta é a realidade que sentiu na pele.

Apesar de hoje lhe soar distante, uma outra vida, a vida de uma outra pessoa num mundo com o qual há muito deixou de se identificar, esse ontem, ainda lhe ensombra os dias, puxando-a para trás e para esse abaixo de nada de outrora.

Não podiam ser mais frágeis os alicerces que sustentam uma mulher então de bem com a vida e aparentemente, só aparentemente, segura de si.

Posto isto, garante a protagonista, família numerosa nada tem do belo realçado nos livros, apregoado nas novelas, nos filmes ou instalado na cabeça das pessoas. Quando há muitos irmãos é cada um por si, e nem sempre o que mais se chega é aquele que mais precisa…

Violeta

Acerca de Violeta

Muitos adoram arroz de tomate e pataniscas de bacalhau, mas poucos confecionam o prato como ela. Portuguesa do Norte, criou este blog para partilhar o seu percurso até aqui, nada fácil, por sinal. Adora ler e escrever. Lê basicamente tudo a que tem acesso. E escreve para manter a mente activa; para testar limites da criatividade; para aprender com histórias e personagens; para dar vida aos anjos e demónios, mexendo em verdades inconvenientes, fantasiando um pouco e ousando também.

Enquanto houver sonho haverá esperança, ela acredita. Por isso, sonha, sonha, e vai sonhando…

O seu lugar

Tratando-se de pessoas, o meio da ponte não será o seu lugar. Ou as adora e abraça; ou as ignora e se afasta.

Onde a podem encontrar

Aqui! Às vezes, ela passa por cá…

Descomprimindo - Aquele dia de Verão e de Sol

Agora mais do que nunca todos sabemos que entediante soa eufemismo, tratando-se de uma família confinada entre quatro paredes. Volta e meia, um dia atrás do outro, semana após semana, já todos se arreliam com uma simples aragem ou solitário mosquito que passe.

Recuemos então quase ao século passado, e mais concretamente às férias de um certo Verão.

Nesse Verão, ao contrário do que vinha a ser hábito, não tínhamos reservado férias para fora. Iríamos de carro, sempre que o tempo o permitisse, à praia mais próxima.

Mas como o tempo não tem comando, este foi-nos trocando as voltas, inviabilizando plano com nevoeiros cerrados e nortadas que enregelam ossos.

Um dia acordámos e tudo o que mais desejávamos aconteceu: céu limpo e aquela oportunidade para aproveitar sol e mar.

Estavam, portanto, reunidas condições para um dia perfeito de praia.

Para aproveitar bem o tempo, chegámos ao destino ainda cedo. Mas já não havia um único lugar vago para estacionar. Ansiosos como nós, parece que todo o interior se tinha deslocado para o litoral.

À cata de um lugarzito onde pudéssemos estacionar com segurança, fomos avançando praia atrás de praia sempre para norte. Almoçámos primeiro e depois optámos por uma não concessionada, lá, onde Judas perdeu as botas.

Corajosos, pai e filho, fizeram-se ao mar.

Morta de calor e, consequência do bacalhau do almoço, salgado, a sede decidiu implicar comigo. Fui-me refrescando com spray de água termal e refreando a ânsia de beber.

Onde estacionar havia, mas casa de banho… Enfim, teria de ser como Deus manda, pelo que fui molhando o bico, só.

Mas como grão a grão enche a galinha o papo, fico ao ponto de explodir num curto espaço de tempo.

Para piorar vem o meu filho, molhado e mais gelado do que se tivesse regressado da Antártida, e salta-me para cima.

Ia tendo uma síncope.

E pronto, quando o dia começa mal a tendência é ir piorando, pelo que decidimos pegar na tralha e abandonar a praia ainda o sol estava alto.

Na berma da estrada estava uma senhora a vender batatas, alhos, cebolas e outros que tais cultivados na horta. Se se mantinha ali o dia inteiro tinha de haver casa de banho perto, pensei. “Olhe, aqui casa de banho não tenho, mas sempre pode ir além à horta!”

Inclinei-me, olhando e avaliando terreno nas costas da senhora. Aninhada entre pencas ou couves, da cintura para baixo, ninguém iria ver. Aceitei logo.

Como a minha condição de género não me permite direcionar micção, aninho-me e o dito fluído sai-me para o lado.

Sem condições e sem papel, emergi de entre as verduras com um carreiro molhado perna abaixo, mas aliviada e de rosto levantado.

Comprei batatas e cebolas mais para disfarçar.

A distância entre o ponto de venda e o carro era curta, mas mais do que suficiente para que a… humidade da minha perna sugasse a poeira.

“Ó mãe, olha que preta está a tua perna!”

“Nem mais um pio, estamos entendidos?”

E pronto, foi assim o meu tão desejado dia de sol.

Quem nunca sentiu aquela... aflição, no sítio errado e à hora errada?...

Violeta

A mania das limpezas em tempo de pandemia

Numa altura em que o ar que se respira nos assusta, para além do isolamento e distância social, importa manter tudo limpo e desinfectado, é um facto. E é aqui que entro eu e esta minha mania das limpezas. Por onde passe ou onde quer que deite o olho, lá vai uma ensaboadela ou banho de lixívia. Enfim, cada tolo com a sua mania. Eu tenho esta como uma questão de conforto, paz interior e bem-estar pessoal, ainda mais por estes dias.

Mas não limpo o que está limpo, como se vai dizendo cá por casa. Limpo o que carece de limpeza, e ponto!, ou não fossem tarefas domésticas o que de mais parvo se encontra na face da Terra. O que ontem se fez, faz-se hoje e amanhã será mais do mesmo, porque se repetem os acordares, as refeições, os banhos, as saídas?, as mudas de roupa e por aí adiante, que é como quem diz: uma mesmice que exaspera os inaptos e inconformados.

A ser sincera, invejo os despreocupados! Invejo-lhes o quero-lá-saber, o isso-fica-para-depois e invejo-lhes, sobretudo, a total ausência de obrigação e compromisso. Quebrem-se ideias preconcebidas e regras estúpidas! Ah, como eu gostava de o conseguir!

Arrumações à parte, tenho sentido mais a solidão por estes dias do que quando estou efetivamente só. Com todos os três confinados entre quatro paredes, ficando cada um entregue aos seus afazeres e idiossincrasias – e já lá vão trinta dias –, não disponho das condições e daquele tempo só meu para acudir a esta minha necessidade de me abstrair e escrever.

Criar este Blog foi uma espécie de compromisso comigo própria: o de partilhar a minha vida passada. Mas para mergulhar nesse passado, tal como para escrever/desenvolver contos, romances ou outro tipo de narrativas, é-me fundamental elevado nível de concentração, o que só acontece tendo disponibilidade de tempo e total ausência de movimentos e ruídos, coisa que tem andado à solta pela casa.

Desejar, desejava atingir o nível dos bons narradores. Mas não consigo mergulhar noutra vida sem me abstrair da actual e da actualidade, eis a razão pelo qual não tenho acrescentado capítulos neste blog, Projecto Violeta, ultimamente.

Para as várias regiões de Portugal continental e ilhas, assim como para o do resto do mundo (Reino Unido; Espanha; França; Brasil; Estados Unidos; Alemanha; Angola; Bélgica; India; Suíça; Canadá; Irlanda; Noruega; Áustria; Holanda; Itália; Macau; Camboja; Jersey; Somália…), e para quem por cá vai passando pontualmente, para todos sem excepção, um grande bem-haja.

Ainda tenho muito para contar. Situações isoladas serão convertidas em contos, histórias curtas narradas na primeira pessoa. Contá-las-ei como se as verbalizasse debruçada sobre o parapeito desta janela.

Saúde e protejam-se, emitando aquele coelhinho que permanece na toca.

A todos, votos de uma Santa e Feliz Páscoa, na medida do possível

E porque sois fracos, auxiliai-vos!

Episódio 30º.

Março de 2020.

A rotina altera-se. A faculdade onde o meu filho estuda encerrou no dia 10 de Março. A empresa colocou o meu marido a trabalhar a partir de casa. A minha ideia de negócio é adiada ou remetida para o plano dos sonhos.

Mas não se trata apenas de nós.

Em todo o Planeta, a vida fora de portas aquieta-se, porque o inimigo invisível anda à solta por aí. E não se trata de ficção. O Homem desacelera, enquanto a Mãe Natureza respira, regenerando-se um pouco em cada continente.

Não importa onde a onda teve início. O importante é ter noção de que fomos nós, o Homem, quem a desencadeou, porque somos demasiados em número; porque somos demasiado gananciosos; porque destruímos para construir; porque não olhámos a meios para atingir os fins; porque maltratámos quem nos acolhe; porque somos fracos… “E porque sois fracos, auxiliai-vos!”, diz a Mãe Natureza, com a serenidade de quem manda nisto tudo.

Quererá a Natureza menos e melhores seres humanos?

Confinados entre quatro paredes, o tempo ganha outra extensão, estendendo os dias, entorpecendo-nos o corpo e adensando-nos o pensamento.

E nunca a frase “vá para fora cá dentro” fez tanto sentido.

Por estes dias tenho pensado nos meus irmãos, nos filhos e netos deles. O estranho é que apesar de todos sabermos onde encontrar os restantes, é como se tivéssemos perdido paradeiro entre nós. Se o sangue é aquilo que nos liga e o afecto o que nos une, o primeiro mantemos por razões óbvias, mas o segundo vai-se perdendo a cada dia que passa.

Paulatinamente e ao longo dos anos, tornámo-nos ausentes, distantes, indiferentes e até desconhecidos entre família. É como se existisse uma barreira física, que ninguém se atreve a transpor. Talvez esta clausura obrigatória nos leve a reflectir e nos reaproxime sem perdermos tempo a discutir assuntos antigos, debates e razões perecidas que não levam ninguém a lado nenhum. Talvez, passado este vendaval, não se perca mais tempo a esgrimir belezas e vaidades, a medir inteligências e a apontar as particularidades de cada um como defeitos ou pecados mortais. Talvez nos voltemos a juntar em festas e não apenas em funerais.

No fundo, sendo nós demasiados, tendo seguido diferentes rumos, vivido experiências e adquirido conhecimentos em nada semelhantes, fizemo-nos estranhos entre família. Enfim, uma espécie de texto repleto de sujeitos, mas sem verbos, predicados e sem assuntos em comum. E o que mais dói em se ter muitos irmãos, é viver na sensação de que se não tem nenhum. Mas para se resolver mal-entendidos e reconstruir afectos, alguém terá de dar o primeiro passo. Enfim, enviei mensagem a alguns. E dos que conservo contacto telefónico actualizado, esses, mantêm-se serenos e a salvo!

E se no fim desta pandemia as pessoas se reaproximarem, familiares ou não, é porque ainda há esperança para a humanidade.

Como referi logo no início deste meu enredo baseado numa história verídica, cada um dos meus irmãos há de ter a sua própria versão da mesma história. E em cada uma delas haverá uma parcela de verdade. Gostava que lessem a minha versão, cada episódio desde o início; que contassem as vezes que chorei enquanto ria; quantas foram as feridas que o meu humor escondeu; o quanto quis que me vissem, aceitassem e aplaudissem; em quem se tornou aquela criança que, tendo nascido  e crescido entre eles, tornou-se uma mulher que desconhecem por completo.

Tenho para mim que esta crise pandémica vai acabar por mudar as pessoas e o comportamento destas face ao outro e ao mundo. Se a mudança acontecer, que irá acontecer, de uma forma ou de outra, que esta comece de dentro para fora: do seio da nossa família para a restante população e do interior do nosso lar para o resto do mundo…

Violeta - Família e Vida.png

Tragic and comic life

Quem desabafa o que quer, sujeita-se a conselhos que nem ao diabo interessa.

Tem cerca de dezanove anos, o breve episódio.

Exausta e com as lágrimas presas por um fio, despia o meu filho ainda bebé. “Já nem sei o que fazer, doutora, ele berra a noite toda”, disse eu à pediatra pela milésima vez.

“Excelente desenvolvimento; reação aos estímulos não podia ser melhor; tudo normal, tudo muito bem!”, revelou pouco depois, toda ela feliz e contente.

Paguei a consulta e lá me vim embora sem resposta e sem solução à vista, ou melhor, com mais um carimbo na caderneta, cuja média de consultas já ultrapassava a uma por mês (sem contar idas a hospitais, clínicas privadas e outros médicos de clínica geral!).

É que isto de médicos, nunca fiando, e com uma série de palpites e diagnósticos a choverem de todas as frentes, fui à bruxa!

Não acreditando nelas, pero que las hay, las hay, decidi bater à porta de uma supostamente infalível. “Muito assertiva e de confiança, porque hoje em dia não se pode fiar em toda a gente, se for… trabalho feito, ela trata-te do assunto!”, garantiu-me uma pessoa com quem tive a infeliz ideia de desabafar.

Bem, se isto de bruxas equivale às superstições, o melhor seria permanecer na ignorância. Mas como estava desesperada e como aquilo do… trabalho feito, moía-me a cabeça, cedi.

Abrigando o menino do tipo de chuva molha-tolos, no lusco-fusco de uma sexta feira, pergunta aqui, pergunta ali, bati à porta da bruxa.

“Hoje é sexta feira!”, berrou uma senhora debruçada sobre o parapeito de uma janela vizinha.

Aponto-lhe um olhar meio de viés, sem nada proferir.

“É que às sextas feiras ele não atende, sabe? Foi levar os… trabalhos lá para as bandas do mar!”, projectou.

Meio que envergonhada, regresso a casa, pensando na bruxa, que havia de ter uma perna extra como o fiambre, ou não fosse ela um ele, um bruxo, portanto.

E não é que volto lá no dia seguinte! E não é que havia fila!

Chegada a vez da minha… consulta?, sento-me com o menino ao colo. O sujeito começa a balancear-se, revira-me os olhos, encadeia uma ladainha e eu faço de tudo para conter aquele ataque de riso. Se há aqui alguém que deve respeito a alguém, serei eu a ele, pensamento que fui interiorizando para me conter, ou não me tivesse sentado de livre e espontânea vontade naquele banco, no interior daquele cubículo, cujo efeito decorativo e cacofonia de cheiros se adivinhava capaz de ressuscitar um morto.

Adiante.

Como orações e canja de galinha nunca matou ninguém, cumpri o ritual, queimando incenso e lendo a ladainha que o sujeito rabisca à pressa num papel.

A minha mãe, ainda viva na altura, diz-me, entre o conselho e o ralhete: “Minha filha, tu livra-te disso! Sê paciente e dá tempo ao tempo!”.

Moral da história: há situações para o qual não existe via verde. Às vezes, o remédio, é dar tempo ao tempo. Sem forçar e sem curas milagrosas, com o tempo, e sem sabermos como, a coisa acabará por se resolver…

Violeta - Comic Life.jpeg

Também se aprende a Amar

Episódio 29º.

Meu querido marido, feitas as contas, já lá vão três anos de um namoro às três pancadas e mais trinta e três de um casamento que foi realizado à pressa.

E como o tempo passa…

Acredito no amor à primeira vista, como acredito que também se aprende a amar.

A verdade é que sequer sei ao certo quando me apaixonei por ti, ou se me tenho vindo a apaixonar cada vez mais ao longo dos anos. Reservado e cauteloso nas palavras que proferes, verbalizas amor através das ações, do comportamento exemplar e da eloquência desse teu olhar que tantas vezes fala por ti.

Sabes, se no início não te fui fácil, foi por insegurança e por medo. Eras homem feito, maduro e confiante, enquanto eu ainda procurava entender-me, aprender a gostar um pouco de mim para poder amar alguém. E esse alguém só podias ser tu.

Não raras vezes, esqueço que as minhas dores também te pertencem. Mas a verdade é que somos dois edifícios com diferentes alicerces. Ao contrário dos bem ancorados como julgo serem os teus, os mais frágeis são os primeiros a desmoronar e os que mais demoradamente recuperam. A principal diferença entre os nossos, é que o meu se vai apoiando no teu. Enfim, consciente de que sou o elo mais fraco, tento compensar-te, a ti e ao nosso filho, sendo-vos devota.

Foi-nos puxado o tapete por diversas vezes, que foi, sem dúvida, mas se em todas elas não caímos, foi porque nos apoiámos mutuamente. Entre o tanto aqui narrado e o outro tanto que só nós dois é que sabemos, vimos a forma e a cor do fim do mundo. Sobrevivemos! Incólumes naquilo que nos une, aconteça ele quando acontecer, ficará a certeza de que o nosso foi um casamento feliz na vida toda.

Numa altura em que tudo é descartável ou muito pouco duradoiro, falar de casamento feliz para a vida toda, soa ficção, letra de música, ou retórica de histórias começadas por era uma vez, cujo fim se resume a um claro e não menos previsível e foram felizes para sempre.

Mas há quem o consiga.

Apesar de tudo, nós conseguimos!, que fique registado.

E não, não existe poção mágica para um casamento perfeito e feliz para a vida toda. Nunca uma das partes será responsável pelo sucesso ou pelo fracasso de um contracto feito a dois. Tenho para mim, que investir na liberdade com base no respeito e responsabilidade, pode estar na base desse sucesso. Senão vejamos, o primeiro passo para matar um passarinho é prendê-lo na gaiola, certo? Então, travessuras da vida à parte, o fim de qualquer relação começa quando uma das partes põe em causa a liberdade da outra. Comida caseira apurada no ponto, também pode ser a chave para um casamento bem-sucedido. Ou seja, se ambos se alimentarem bem em casa, nunca fast food será opção fora de portas, se é que me faço entender.

Mas com Internet e tecnologia ao alcance de todos, nunca foi tão fácil chegar a alguém e nunca a tentação morou tão perto. Sob a proteção de um perfil nem sempre claro e transparente, estando do outro lado do ecrã, perde-se filtro social e por isso opina-se, enxovalha-se, cerca-se e também se assedia.

Sabemos disso, não sabemos, marido?

Ainda há pouco bloqueaste a catraia que, desconhecendo o quando e o como conseguiu o teu contacto via WhatsApp, te queria fazer as… “unhas”. Ao que eu te disse, em jeito de brincadeira: “Leva preservativo, caso precises recorrer à tal manicure!”. Ou seja, brincámos com o assunto, rimos com vontade de rir, e depois tu mandaste-a às favas, sem que eu o sugerisse.

Cá para nós, que ninguém nos ouve, a sujeita nada percebia de unhas, pois não?

Em suma, não damos importância, porque dar importância é dar força a quem não importa. E ambos sabemos quem importa. Ambos sabemos respeitar a pessoa que permanece ao nosso lado para o que der e vier.

À pressa, sem curso e sem preparação prévia, captámos desde o início qual a dinâmica de uma vida conjunta. Somos diferentes, não podíamos ser mais diferentes, como tão bem o sabes, o que nunca permitimos foi que essa diferença chocasse e nos separasse.

E dos trinta e três anos, que venham outros tantos!

Sem mais rasteiras, que já sobra das que tivemos, avancemos com a mesma liberdade e com o mesmo equilíbrio entre o respeito e a falta dele, se é que as restantes pessoas conseguem perceber este nosso trocadilho.

Obrigada, meu querido marido, obrigada por me amares quando ninguém me amava; obrigada pelas tuas precisões imprecisas, pelo teu jeito passivo, pelas tuas respostas indefinidas (esse tanto faz ou como queiras, que tanto me irrita); obrigada por seres tu e obrigada por nunca te teres fingido perfeito…

Violeta - Aprender a amar.jpeg

De bebé a jovem universitário foi um piscar de olhos

Episódio 28º.

O meu filho… A primeira noite inteira de sono dele, foi de desassossego para mim, que me levanto e o escuto de perto frequentes vezes, controlando o impulso para o não sacudir. Para além de alérgico às proteínas do leite de vaca, também era ao ovo e ao peixe, entre outras alergias menos significativas. Dizê-lo agora pode parecer banal, mas não o era há vinte anos. Agora os potenciais alergénios estão destacados, vêem-se a negrito nos rótulos. Alimentos alternativos até pecam pelo excesso. Mas na altura tudo era escasso, incluindo informação. A alergia em si era coisa estranha e rara entre as pessoas. “Coitado do menino, é doentinho”, diziam. Eu ficava danada, mas fazia descaso. No processo, a ignorância delas foi a minha maior dificuldade.

Atravessámos uma fase em que alimentos alternativos e comida saudável viram moda. Mas o que é isso de comida saudável? Produtos embalados onde a palavra vegan ou biológico se vê em destaque, serão esse tipo de alimentos os mais saudáveis? Talvez o sejam. Para quem vive nas grandes cidades, aceito e até compreendo. Já para pessoas com as minhas raízes, saudável é o que se apanha numa horta isenta de fertilizantes, se lava e se mete diretamente na panela, sem banho de conservantes e sem passarem pelo plástico. Produtos biológicos em prateleiras de supermercado, só pelo simples facto de se encontrarem embalados em plástico, não deveriam ser considerados biológicos. Mas sendo esta uma opinião pessoal, vale o que vale. Em suma, se saudável é tudo aquilo que se apanha na horta, então, muito pouco do que circula por aí será saudável.

A alergia do meu filho levou-me a ser mais consciente relativamente à alimentação, aos alimentos e às embalagens que colocava no carrinho. Muito do que consumia, perdeu lugar na minha despensa. Quando no infantário, e posteriormente no colégio, aponto salsichas, fiambres, pão embalado, tostas, papas para crianças e bolachas como alimentos perigosos e me olham como se eu fosse um bicho com sete cabeças, percebo que a maioria do consumidor ingere sem noção daquilo que consome. Tive de ser paciente e criativa também. Bolos e bolachas sem derivados de leite e sem ovos, eram confecionados por mim cá em casa. Até bombons cheguei a fazer. O que nunca permiti foi que o meu filho se sentisse o “doentinho” e por isso excluído.

E é aqui que entra a Natureza e o quão sábia é!

Se me dissessem que é instalado um chipe nas crianças de algum modo limitadas, eu acreditava logo. A dada altura deixei de me preocupar tanto, porque ele próprio, e melhor do que qualquer outra pessoa, sabia o que podia comer ou rejeitar directo. E isso é maravilhoso! Se por um lado nos aquieta a nós pais, por outro, dá poder de decisão, responsabilidade e autonomia a eles.

Mais tarde, o peixe e os ovos foram-lhe incluídos na dieta. Mas relativamente ao leite não obtivemos tão bons resultados. O protocolo de indução à tolerância das proteínas do leite de vaca não foi levado até ao fim. Ele pura e simplesmente não colaborou “A doutora diz que é para teu bem”, tento convencê-lo. “A doutora não sabe nada! Eu, eu é que sei, porque sou eu que sinto!”, defende-se, acusando sensação de asfixia compreendida entre o esófago e a garganta. E pronto, fomos forçados a desistir.

Em conversas à mesa, nunca existiram assuntos tabus cá por casa. O que existiu, dependendo da idade dele, foram diferentes formas de abordar e esmiuçar os temas e as questões. Sempre conversámos com ele como se de uma pessoa crescida se tratasse. E ele cresceu um bom miúdo. Talvez um pouco impulsivo como a mãe e não tão ponderado como o pai e como eu gostaria que fosse.

Pai e mãe perfeitos é mera utopia. Não existe e ponto. Todavia, atrevo-me a apontar a fórmula antiga como a mais adequada: uma mão dá o pão, a outra a educação e ambas abraçam. Trata-se de atenção, cuidado, carinho e disciplina, no fundo. Feito o balanço, o mais difícil foi e é dizer não. Mas mais difícil do que dizer não, é fazer prevalecer esse não. E ele ouviu muitos nãos, nãos mesmo! No fundo demos-lhe o que entendemos melhor: melhor infantário da zona; melhor colégio; academia de música; aulas de natação, hipismo… Ele adora cavalos! Onde terá ido buscar essa paixão por cavalos é que desconhecemos. Ele agora está no ensino superior. Distante de nós, na sua vida académica, está a construir as próprias memórias, a adquirir conhecimento e a preparar-se para o futuro. E eu aqui às voltas com a síndrome do ninho vazio. Dóiii…

Enfim, daria a vida pelo meu filho sem regatear…

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Em jeito de balanço

Para quem não sabe, este é um blog biográfico, uma espécie de enredo baseado numa história verídica, na minha vida; a de Violeta, mulher como tantas outras por aí.

Apoiada no arame de um equilibrista sem rede, iniciei pela infância. Não pretendo fazer desse caminho caminhado e de outras ruelas sinuosas que percorri, pares de meias atulhadas e esquecidas no fundo do gavetão. Esgravato nessas feridas e nesse meu passado como quem exorciza demónios, porque pretendo deixar em palavras escritas experiências e factos que me são difíceis ou impossíveis verbalizar.

Em fase de crescimento – processo natural –, quando as cobras se sentem apertadas na sua pele pesada, feia e suja, é de sua natureza libertar-se dela, substituindo-a por uma outra nova e limpa com desenhos bem definidos e cores vibrantes. Pudesse eu e faria o mesmo em relação a mim e ao meu passado: roçaria a nudez do meu corpo numa superfície áspera e librar-me-ia dessa luva, pele densa e danosa que se cola a mim tanto quanto a repilo.

Por estes dias fartei-me de entrar e sair neste blog; fartei-me de escrever e apagar; fartei-me de mim e fartei-me de remoer um dos piores finais e inícios de ano desta minha passagem por este lindo planeta azul.

Tempo, precisei de um tempo de introspecção.

“Ano novo vida nova”, dizem por aí. Tomara este novo ano me traga a tal vida nova, porque só uma outra vida me faria sentir digna do tanto que possuo (saúde, comida, casa e (aquele tanto que sinto pouco) afecto).

Com o tempo frio e chuvoso e os dias mais curtos, a melancolia embala as pessoas, tornando-as mais reservadas e esquivas. E eu não serei excepção. Enquanto aguardo a época alta, esse período pujante de eventos e casamentos, vou pensando no que fazer, em como ser produtiva e rentável sem prejuízo da rotina e dos afazeres cá por casa.

Algo está para acontecer, e não se trata de um palpite. Esta minha natureza insatisfeita e inquieta, avisa-me quando o fanico me ronda. E quando o fanico acontece, ninguém me segura. “Deixa-te disso! Se aguentámos até agora, vamos conseguir”, dirá o meu marido. Mas ao filho ainda falta este último ano para terminar a licenciatura e depois virá o mestrado… Às vezes penso emigrar. Talvez no estrangeiro seja tão nova como me sinto e não tão velha como diz olhar alheio; talvez valorizem este meu vício de dar o máximo ainda que em tarefas de pouca monta; talvez me inscreva nos cruzeiros e me aventure por mares calmos e não revoltos; talvez encontre a tal paz e grandeza que desconheço; talvez…

Relativamente a este espaço e a esta narrativa tão minha e pessoal, tudo se irá desenrolar como até aqui: sem floreados, sem desvios e sem rede, será tão a cru como crua a vida se me tem apresentado.

Recuando a 2019, situações e tristes factos que julgava extintos, acontecem em pleno século XXI:

Violência doméstica, flagelo sem fim à vista;

Violação e abuso sexual a menores, a ponta do icebergue;

Assédio sexual e moral no local de trabalho, um crime que passa impune;

Poder e desigualdade salarial, realidade que beneficia o designado sexo forte;

Protestos, manifestações, revoltosos e criminalidade, é a intolerância e desigualdade social em crescendo;

Negligência médica, com a tecnologia e meios de diagnóstico ao dispor, inadmissível o nascimento de um bebé com malformações (talvez por já ter vivido o pesadelo, doeu-me e não pude deixar de sentir vergonha alheia);

Discriminação social, ninguém assume apesar de todos a praticarem de uma forma ou de outra;

Alterações climáticas, responsabilidade de todos;

Pobreza envergonhada, continua a ser aquela que não conta e nem interessa falar…

Violeta, às voltas consigo própria

Pôr do Sol.jpg

Bom Ano 2020!

Ama sem idade;

Vive fora da caixa;

Ousa quanto possas;

Aprende sem limites;

E transmite quanto sabes.

Aquilo que somos, temos e sabemos, faz mais sentido quando partilhado.

Se quiseres, queiras tudo;

Se fores, segue até ao fim;

Se fizeres, faz o teu melhor;

E enquanto viveres, sejas feliz, muito feliz…,

Violeta

Violeta - Bom Ano 2020.png

Mulher

És mulher vida. Vida futura. E vida passada. És mulher tudo. E recusa ser nada..., Violeta

Quem sou

Textos

Projecto Violeta é um blog biográfico. Tendo como base experiências pessoais e percurso de vida, as publicações são, portanto, originais (qualquer semelhança é pura coincidência). As publicações em verso (poemas) também são originais. Sendo os textos fruto da criatividade da autora, possuem individualidade própria e, como tal, estão protegidos pelos direitos de autor. Obrigada

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Parte das imagens são editadas na Crello de forma legal. Caso se verifique alguma irregularidade, por favor, entre em contacto comigo através do e-mail: projectovioleta@sapo.pt

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