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Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Afeto, era um prato de comida

Numa versão revista e reeditada

Uma menina fungava os moncos, que lhe batiam nos beiços, enquanto os piolhos escuros e roliços caíam sobre o branco da sebenta em sala de aulas.

A estes, que como baratas tontas percorriam a superfície lisa da folha, ela soprava-os como se não fossem seus; como se não se tivessem desovado nos fios do seu cabelo escuro; como se não tivessem nascido, crescido e alimentado em si, reproduzindo outros tantos.

Vergonhoso, inaceitável e condenável nos dias que correm, para dar início ao filme baseado na vida de Violeta, esta foi a cena eleita por si, entre tantas outras possíveis e não menos abjetas.

“Preferia que me desses uma bofetada na cara do que me dizeres que é rapariga!”, dissera o seu pai assim que nascera. Logo aí, no decorrer da infância e por tantas vezes ouvir a frase, de forma inconsciente, Violeta foi-se incluindo no lote dos menos afortunados, uma espécie de maldição que a tem vindo a acompanhar ao longo da vida.

Nessa altura, ter raparigas era sinónimo de responsabilidades, preocupações e cautelas redobradas, porque uma mulher engravida e um homem não e porque mais uma menina era mais uma parcela na soma dos encargos. Enfim, enxoval e despesas de casamento corriam por conta dos pais da noiva, coisa de outros tempos.

Da infância, as memórias não são muitas e nem muito claras. Eram muitos irmãos, são muitos irmãos. Apesar de a contagem ter começado a diminuir, ainda completam uma equipa de futebol de 11.

Violeta foi a penúltima, a décima primeira de uma dúzia e daquilo que a mãe designava como: “sois a cruz que Deus me deu”. Desde cedo ela percebeu ser apenas mais um; desde cedo percebeu que um prato de comida na mesa era a expressão máxima de afeto que lhe podiam dar. E a verdade é que um prato de comida na mesa nunca lhe faltou.

Ela era a mijona (fez chichi na cama até aos nove anos). Não sabe se no seu caso específico existia explicação lógica para a enurese noturna, mas lembra-se da resistência ao sono sempre que se deitava. Dormir significava acordar encharcada, pelo que manter-se acordada seria a solução, entendia, erradamente, percebera-o bastante mais tarde. Mas enquanto criança não tinha essa noção, pelo que, naturalmente, facilmente era vencida por um sono que a inundava até ao pescoço. Depois levantava-se, vestia o que houvesse e assim abalava para escola.

Por se sentir desenquadrada e menosprezada, nunca chegou a gostar da escola. No recreio passava a vida escondida pelos cantos e na sala de aulas nada mais enfadonho: a matemática demasiado fácil e a escrita, leitura, cópias e ditados de textos escritos por outrem, era-lhe difícil de gerir.

Os ditados eram para lá de assustadores (cada erro cada reguada e o medo tanto, que se perdia nas palavras e na leitura difusa e apressada da professora).

Na altura designadas como redações, fascinantes eram as composições. Apanhasse ela vagos nas vindimas, desfolhasse ela espigas de milho, apanhasse lenha da poda, batatas na altura delas, carregasse e sobrepusesse cavacos, catasse ervas entre o cebolo, ou o que fosse pelos campos, a imaginação caminhava em passo de corrida na sua mente em pulgas. Gostava de criar textos, os seus próprios textos, com as personagens e os cenários que a sua imaginação lhe ditava.

Nesses textos que eram seus, atrevia-se a explorar lugares, a ter experiências, a entrar em aventuras, outras realidades e a viver vidas que desconhecia. E isso era fascinante!

Um dia a professora sentou a nádega na beira da sua carteira, depois de pousar a régua para que a visse. “Quem escreveu isto?”, perguntara ela, enorme e velha com o seu melhor ar ameaçador.

Se calhar a professora nem era tão enorme, nem tão velha e nem tão ameaçadora como a memória lho dita, mas tudo lhe parecia enorme, velho e assustador na altura.

“Foi a tua mãe?”, insistira a professora, mas insistira tanto que Violeta acabou por confirmar o que esta impôs que confirmasse.

A mãe sabia ler, e Violeta orgulhava-se disso! Mas letras, apenas desenhava as do seu nome. Todavia, o facto não a ajudou em nada. A professora desferiu-lhe reguada atrás de reguada sem medo que estas lhe partissem os ossos da pequena e trémula mão.

Era, portanto, proibido dar largas à imaginação, apreendeu Violeta e reteve a lição.

Um outro dia, a professora dissera alto e bom som para que toda a sala ouvisse: “Fedes a mijo!”, atirou, sugando o ar pelas narinas com manifesta expressão de repúdio. “Sai-me daqui! Vai embora e lava-te!”, projetara incomodada.

Violeta, envergonhada, levantou-se de cabeça baixa com as lágrimas quase a saltarem-lhe dos olhos e obedeceu. Abandonou a sala com vontade de não mais lá voltar.

Em casa o banho fazia-se numa bacia. Primeiro lavava-se a cabeça, braços e tronco, secava-se e só depois se lavava da cintura para baixo, na mesma água, na mesma bacia. Violeta era criança e sequer se atreve a garantir que lho faziam todos os dias, logo, feder a mijo seria inevitável.

No dia seguinte, os seus pés caminhavam rumo à escola enquanto a mente lhe suplicava que fugisse, que recuasse, que voltasse para trás, mas não para casa.

A aluna humilhada imaginou-se desviar caminho, imaginou-se no centro do milheiral denso e verde cujo odor, misto de terra, adubos naturais e verduras, conhecia de cor. Imaginou-se no interior de um talhão específico, aquele entalado entre um muro galgado de musgo e um riacho de águas límpidas. Imaginou-se fundir e sumir numa das histórias que abundavam na sua mente e ver o tempo passar, os ponteiros do relógio darem infindável número do voltas, noite e dia e um dia atrás do outro.

Mas a realidade era outra. Na boa verdade, se não apanhasse na escola, apanharia em casa. Na catequese também, mas esta parte só de ouvir dizer. “O Monsenhor tem uma palmatória com pregos!”, cochichavam. Mas ela, com ou sem pregos e apesar de lhe ter um medo de morte, nunca vira palmatória alguma.

A infância de Violeta fora pautada pela insegurança, pela humilhação, pela vergonha e pelo medo, principalmente.

Consciente de que sendo eles muitos irmãos e como tal cada um há de ter a sua própria versão da mesma história, sem floreados ou falsas memórias, esta é a realidade que sentiu na pele.

Apesar de hoje lhe soar distante, uma outra vida, a vida de uma outra pessoa num mundo com o qual há muito deixou de se identificar, esse ontem, ainda lhe ensombra os dias, puxando-a para trás e para esse abaixo de nada de outrora.

Não podiam ser mais frágeis os alicerces que sustentam uma mulher então de bem com a vida e aparentemente, só aparentemente, segura de si.

Posto isto, garante a protagonista, família numerosa nada tem do belo realçado nos livros, apregoado nas novelas, nos filmes ou instalado na cabeça das pessoas. Quando há muitos irmãos é cada um por si, e nem sempre o que mais se chega é aquele que mais precisa…

Violeta - Favicon Mandala.png

 

Violeta

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És mulher vida. Vida futura e vida passada. És mulher tudo. E recusa ser nada..., Violeta

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