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Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Projecto Violeta

Este Blog é biográfico. Aqui será narrado o meu passado, a vida de Violeta - mulher com nome de cor e de flor, com matizes e contornos invulgares

Assédio Moral é um bicho silencioso e traiçoeiro que nos mata

Episódio 18º.

O primeiro passo foi transferir o meu gabinete para o fundo do sector. “Aqui terá melhores condições”, justificou, e sim tinha de facto melhores condições, pelo que só podia ter concordado. Todavia, essa curta distância, permitia-lhe filtrar as minhas chamadas e interceptar quem me procurava. As informações passaram a ser parcas, vedadas, confusas e repletas de lacunas. Valia-me o facto de conhecer o modo de operar e os clientes de cor, por isso, nunca derrapei, nunca me permiti falhar apesar da escassa comunicação, da ansiedade e da sensação de asfixia sempre que descia as escadas no início de cada jornada. “É impressão minha”, tentava convencer-me.

Apesar de ser difícil para adormecer, pegando no sono, o meu filho já dormia a noite toda por essa altura. Foram-me tão difíceis os primeiros anos enquanto mãe. Eu mal dormia, as freiras dificultavam-me a vida e meu chefe apertava-me o cerco. “Não, é impressão minha”, dizia-o repetidas vezes ao longo do dia a mim mesma. Mas o certo é que em vez de ele me abordar diretamente, fazia-o servindo-se da jovem minha auxiliar. “Prepara-me esta encomenda”, dizia-lhe, apesar de a saber incapaz em situações e pontos específicos. “Está pronta, está preparada há dias”, respondia-lhe eu. Essa era uma característica do qual me orgulhava. Relativo ao meu trabalho, o que quer que me fosse pedido a resposta repetia-se: está pronto!

Não devia ter permitido que me afetasse ao ponto de eu colocar em causa o meu próprio discernimento, mas o certo é que permiti. A cada dia que passava a tensão aumentava. Apesar de eu nunca ter ambicionado o seu lugar, apenas cumprir a minha função como até ali, passei a ser vista como uma ameaça, não sei porquê. Um dia chamei o gerente e confrontei-o. “O quê?! É que nem pensar numa coisa dessas! Ela é a pessoa mais competente que já trabalhou comigo!” Foi tão pronto na resposta como pronto foi em abrir a porta do meu gabinete e dar uma cínica e silenciosa gargalhada, depois do gerente se ter retirado.

Era a minha palavra contra a dele.

A partir desse dia, a ansiedade, a sensação de asfixia e morte, alargou-se para todo o tempo útil. Transformei-me em dois seres completamente distintos: um aquele que as pessoas viam e outro aquele que só eu sentia. E sentia-me à beira do precipício. Se a lei está do lado das vítimas de assédio moral, na prática este é um crime, digo eu, impossível provar. Nunca os colegas ficarão do teu lado, porque eles próprios têm um lugar e um ordenado a defender. É um processo solitário, humilhante, física e emocionalmente desgastante, chegámos a roçar a loucura, perdemos o sono, colocámos a nossa vida em risco e desacreditámos em nós próprios.

Se alguém passar por cá e ler este capítulo, por favor, desista caso esteja a passar por algo semelhante. O assédio moral é um bicho traiçoeiro e silencioso que nos mata sem darmos conta.

Atingido o limite, o lamaçal das profundezas, coloquei termo à tortura. Com total apoio do meu marido, despedi-me. Não o devia ter feito, apenas metido baixa médica, mas a ideia de manter um vínculo que fosse com aquela pessoa em concreto, matava-me por dentro.

Gostava do meu trabalho. Os múltiplos e naturais problemas de um sector em passo de corrida, o ter de solucionar vários deles em simultâneo, a disciplina inerente à rotina de uma vida profissional, o sentir-me útil, remonerada à altura das responsabilidades e capaz… é disso que sinto falta.

Nesse meu percurso profissional, conheci duas pessoas distintas: o meu primeiro Mestre, aquele que me forneceu bases nas quais construí o meu próprio edifício, e este último chefe com perfil de ditador. O próximo capítulo será dedicado a ambos e à forma como se cruzaram no meu caminho…

Violeta - Assédio Moral.jpeg

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És mulher vida. Vida futura. E vida passada. És mulher tudo. E recusa ser nada..., Violeta

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